Amigos,
Achei essa homilia nos arquivos do meu antigo computador. Não ouvi toda e não lembro de quando é (provavelmente é de páscoa ou pentecostes, mas não sei muito bem). Espero que gostem!
Pe. Fabiano de Carvalho
http://www.4shared.com/mp3/mZfcQnTK/Pe_fabiano_2.html?
terça-feira, 21 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Mensagens aos Legionários de Boa Esperança
Caríssimos oficiais da Cúria Imaculada Conceição,
Pelas numerosas atividades que nos ocupam os finais
de semana, nossa presença tem se tornado rara neste momento em que vós vos
reunis. Entretanto, a fim de não deixar passar esta ocasião decidi escrever-vos
estas reflexões com as quais comunico algum fruto espiritual ao mesmo tempo em
que reforço minha comunhão com a Cúria da Legião de Maria e os presidia de
nossa paróquia.
No dia primeiro de maio passado, celebramos o dia de
São José Operário, título com o qual se reconhece no, Esposo da Virgem, as
virtudes laboriosas que o impeliram no ofício de ser o chefe da Sagrada
Família. Bem se sabe pelas Sagradas Escrituras que São José era carpinteiro
(cf. Mt 13,55) e que ensinou a Jesus Cristo sua arte (cf. Mc 6,3).
Se considerarmos bem, o trabalho que exercemos nos
aproxima de Deus. Pelo trabalho da Criação, Deus dá a vida a todas as coisas e,
pelo trabalho que exercemos, transformamos o mundo e as coisas criadas por Deus
para aperfeiçoar e cuidar de nossas vidas. Na experiência de amor por Deus e
pela sagrada família, São José se torna para nós um exemplo de quem, diante de
Deus, trabalha para o sustento da Sagrada Família, transformando, em sua
carpintaria, as horas de esforço em louvor ao Pai.
Contudo, o trabalho de São José não só estava em
ordem do sustento material da Sagrada Família, mas também estava em ordem do sustento
espiritual dela e de toda a Igreja. Um trabalho espiritual que poderíamos considerar
em três características: Escuta obediente, Zelo puríssimo e Comunhão amorosa.
I. Escuta obediente
“José, seu esposo,
que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente.
Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe
disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela
foi concebido vem do Espírito Santo... Despertando, José fez como o anjo do
Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa”. (Mt 1,19-20.24)
Toda obediência procede de uma experiência de escuta
da Palavra de Deus que toca o coração do homem e o muda, convertendo-o para o
céu. O trabalho espiritual de São José partiu da escuda da Palavra de Deus
trazida pelo mensageiro do Senhor que lhe apareceu em sonho. Disposto a seguir seus próprios projetos,
teve seus planos mudados por aquela manifestação de Deus.
A escuta obediente levou José a mudar seu interior para
adequar-se aos projetos de Deus. Poderíamos dizer, sem sombra de dúvidas, que o
mesmo Espírito que fecundou o puríssimo ventre de Maria também fecundou a
vontade puríssima de São José para que ele obedecesse à vontade de Deus.
Também o Legionário deve estar atento à Palavra de
Deus que se lhe dirige todos os dias para atingir a obediência. Muitas vezes
esta palavra vem mediada por mensageiros que Deus lhes provê para apontar o
caminho da obediência e fazer de sua própria vontade a vontade de Deus.
II. Zelo Puríssimo
“Depois de sua
partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma
o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque
Herodes vai procurar o menino para o matar. José levantou-se durante a noite,
tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2,13-14).
São José é o guarda dos dois maiores presentes de
Deus para a Igreja e, por ela, para a humanidade: Jesus e Maria. E para cuidar
deles não mediu seus esforços. Durante a noite levantou-se para leva-los para
longe das ameaças do mal. O zelo que José tinha pela Sagrada Família o impedirá
de pensar em seu próprio conforto ou em horas cômodas ou incomodas para
executar aquilo que Deus lhe mandou. Sabia que era o melhor para os Tesouros de
que era guardião fazer como Deus mandara e por isso o fez!
Se o Legionário não aprender com São José a não
medir seus esforços por zelar por Jesus e Maria não cumprirá seu papel de
cristão. Dia e noite deve cuidar para que tais santas presenças não se apaguem no
mundo e, por isso, deve trazer em seu coração o prestígio por Jesus e Maria
zelando para que suas ações não expulsem de seus corações tão doces presenças,
sob pena de terem sua missão frustrada. É necessário, pois, um zelo puríssimo
para proteger a presença de Cristo e da Virgem Maria em nossas vidas, pois o
mal, ainda hoje, deseja mata-los em nós.
III. Homem de comunhão amorosa
“Despertando, José
fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa”.
(Mt 1,24)
São José, ao receber a Virgem Maria em sua casa
também recebeu Jesus em sua vida e por isso estabeleceu uma verdadeira
comunidade de comunhão e amor. A comunhão é a mútua acolhida entre as pessoas e
o amor é o cuidado gerado quando a comunhão é real: acolhida e cuidado,
portanto, são duas características através das quais podemos reconhecer a
comunhão e o amor.
Não somos também chamados a essa dupla realidade de
comunhão e amor, acolhida e cuidado? Cada Legionário deve encontrar nestas
virtudes do Santo Nutrício a inspiração
para sua própria vida espiritual na qual não se pode abrir mão da acolhida de
Maria e, por ela, de Jesus em nossas almas.
Assim, queridos
Legionários, vemos como São José nos é inspiração para que busquemos também nós
a experiência de Escuta obediente, Zelo
puríssimo e Comunhão amorosa. Não é sem motivos que o vosso manual
recomenda a estima a São José dizendo: “Para o seu amor se mostrar poderoso em
cada um de nós, é necessário que o nosso procedimento para com ele reflita a
compreensão do intenso afeto que nos consagra. Jesus e Maria, agradecidos a
José pelos seus carinhos e trabalhos, traziam-no sempre no coração. Procedam do
mesmo modo os legionários” (Manual, p. 178).
quinta-feira, 28 de março de 2013
Sermão das Sete Palavras
Sermão das Sete Palavras
Introdução
As sete últimas
palavras de Cristo na cruz, para rasgar o véu do templo (cf. Mt 27,51), e nos
colocar diante do Pai, nos transmitem um testemunho que passa pelo caminho da
dor, do abandono, das impossibilidades, da misericórdia e do perdão. No alto da
cruz está um homem que sofre nossas dores e nelas – nas dores mais agudas da
alma humana – se faz amigo das horas de solidão, das dificuldades dos apertos e
sofrimentos.
Muitas e
muitas vezes nos sentimos perdidos, solitários, abandonados dentro de nossa
própria casa, de nosso trabalho e de nossa vida. Um abandono que nos leva a
tristeza de não enxergar esperanças. Jesus, na solitária cruz, não deixa que a
amargura lhe tome o coração, mas, ao contrário, mesmo sentido as dores de sua
Paixão nos abre um caminho para fora de nosso isolamento.
Um caminho que
passa do interior para o outro, que passa da solidão para o encontro, da dor
para a alegria e nos ensina que toda a redenção começa no coração do homem e o
leva até o Pai. Jesus saiu de sua solidão para um encontro com seu Pai e neste
encontro nos conduziu consigo até o alto.
E nós? Que
papel nos cabe neste caminho? Quais os passos que devemos dar? Se percebermos,
temos cada vez menos conseguido lidar com várias coisas que nos afligem: os
homens cada vez menos conseguem lidar com suas questões interiores, com suas
dores, com suas vidas; as mulheres cada vez mais audaciosas nos seu ambientes
de trabalho são cada vez menos donas de seu interior e vez por outra se
submetem a situações que as colocam num vale de solidão; os jovens, cada vez
mais ávidos de uma liberdade sempre acabam se entregando à ciranda da vida que
não os deixam senão com uma imensa culpa e, mergulhados na tristeza de seus
atos, vivem uma vida que carece de sentido e expectativas.
Essa é a dor
da nossa cruz: a incompreensão, o abandono, a pobreza interior que amesquinha o
ser humano, a dolorosa cruz que nos marca a vida interior...
É nesse
momento que Jesus, no alto da Cruz nos da sete passos para sair das agitações
interiores para uma liberdade que nos permite um encontro com Deus e nele
descobrirmos um amigo interior que nos faz sair da solidão para a Amizade.
1ª PALAVRA: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”.
Não sabemos o
que fazemos? Será que poderíamos tomar para nós essa palavra? Quando nossos
atos não correspondem ao amor a que nos propusemos, quando nossa hipocrisia não
nos permite a auto crítica que nos tempera em nossos arrazoados, muitas vezes
cheios das melhores intenções, mas eivados de arrogância e tirania? À primeira vista o modo como nos
cobramos, rígidos e implacáveis, não nos permite ser receptores deste perdão.
Mas ali no
cenário do calvário as palavras dirigidas aos algozes de Cristo ressoam por
toda a terra em todo tempo incluindo a cada um de nós na história, até hoje!
Se nossa
escola de vida nos permite a dureza, a radicalidade, a implacabilidade conosco
e com os outros, a escola da cruz oferece a lição do perdão. Não somos
perdoados pelo quanto merecemos – nós, por nós mesmos não o merecemos. Somos
perdoados pelo quanto Cristo nos amou e se é esse amor a medida do perdão,
Cristo, que ama sem limites oferece um perdão que é infinito.
Por isso
também nós devemos nos perdoar. Quero dizer que cada um deve perdoar a si mesmo
antes de tentar perdoar aos outros. Você pode hoje olhar para dentro de si
mesmo, como quem afrouxa o nó da forca do seu próprio juízo e sentir-se
presente diante de um juiz mais misericordioso que nós mesmos.
Quando nos
aproximamos de Jesus Crucificado para ouvir de seus lábios, sôfregos pelas
dores que o tocam o corpo e a alma as palavras de perdão, devemos lembrar que
somos, enquanto seres humanos, imperfeitos e limitados e, se isso nos causar a
dor, temos alguém que, como um companheiro de viagem, um amigo, nos fez
perceber que nossa perfeição esta exatamente centrada na capacidade de sermos
melhores a cada dia e não de nos reconhecermos prontos e acabados... um homem
que não tem espaços abertos para o crescimento é um homem morto, mas aquele que
na solidão de seus sofrimentos consegue encontrar uma porta aberta para ser
melhor, isto é, para transcender... um amigo foi a nossa frente e nos ensinou a
não parar na cruz da auto punição, mas ir até a ressurreição de nossa
consciência: Pai, perdoai-nos por que não sabemos que o amor é melhor do que a
culpa.
2ª PALAVRA: “Em verdade te digo:
hoje estarás comigo no Paraíso”
Uma promessa?
Não, amigos não fazem promessas! Amigos realizam! Jesus ao olhar para o ladrão
não o escolhe por ter sido uma pessoa com uma trajetória de vida sem erros, não
o elege por ser irrepreensível, não o faz amigo por ser melhor do que todos os
outros. Esses critérios não são os critérios do Cristo, mas os nossos.
Somos assim
nas nossas escolhas: vemos primeiro o exterior, vemos primeiro os benefícios,
escolhemos primeiramente aqueles que nos possibilitam quaisquer crescimentos. Mas
quando fazemos isso não nos colocamos abaixo? Quando discriminamos alguém, o
colocamos em grau inferior, mas quando supervalorizamos alguém, NOS COLOCAMOS
em grau inferior.
Jesus da o
maior dom, o da felicidade, isto é, o céu, a um ladrão!
Também não
reside a bondade de Cristo no fato de ser o seu “novo amigo” um ladrão. Não é o
fato de ser minoria que faz de alguém privilegiado. No mundo de hoje, vemos a
ditadura das minorias que viram no fato de serem, de algum modo, discriminados
um direito a, como quem paga com a mesma moeda, discriminar. O valor do ser
humano reside nele mesmo enquanto tem algo de divino em si.
Jesus da o
maior dom, o da felicidade, isto é, o céu, a alguém que se sabia limitado e
culpado, mas que acreditou na misericórdia inocente e ilimitada de Deus.
Também nós nos
encontramos hoje, crucificados pelo tempo presente: nossos conflitos interiores
são nossos algozes; nossa solidão, o açoites; nossa impaciência, os cravos e
nossas culpas a lança que perfura o nosso peito com sentimentos de dor e
rejeição por nós mesmos e por outros.
Mas também
hoje estas palavras nos atraem para Cristo, como ele mesmo havia prometido (Cf.
Jo 12, 20-33). Mesmo neste mundo, ao encontrarmos Jesus, nosso amigo
interior que está sempre conosco, podemos viver à porta do paraíso, como diz o
salmista: “Verdadeiramente, um dia em vossos átrios
vale mais que milhares fora deles. Prefiro deter-me no limiar da casa de meu
Deus a morar nas tendas dos pecadores”. (Sl 83,11).
Só alguém que
se sente perdoado, pode perdoar e por isso, a comunidade de amigos é a Igreja do
Perdão onde se poder oferecer e receber a graça da salvação todos os dias no
próximo, na palavra e no pão eucarístico sinal de reconciliação com Deus.
A palavra que
ouvimos de Cristo nos dá a graça de estar no limiar do céu, como comunidade
eclesial, viver na alegria do perdão e da amizade.
3ª PALAVRA: "Mulher, eis aí o teu filho. Filho eis aí a tua
Mãe!"
Neste caminho
de salvação que nos tira do egoísmo e nos coloca na fraternidade e na amizade,
um rosto nos é dado: Maria, a Virgem do Amor Perfeito. Sofrendo no coração e na
alma o que Cristo sofria no seu corpo, Maria é a primeira aluna da escola do
amor.
A dor de ver
seu filho não a torna avessa ao mundo, mas o acolhe com amor como seus filhos,
no Cristo. Ai está tua mãe, pronta a te acolher, não deverias tu também, de
prontidão acolhe-la? E acolhendo-a como Mãe do Amor Perfeito, acolher também a
todos os teus irmãos?
Em Maria o
exemplo do amor que supera a dor, o amor que supera a mágoa, o amor que acolhe!
Filho, eu te
digo hoje, como Cristo no alto da cruz: Eis ai o exemplo de tua mãe!
4ª PALAVRA: "Elói, Elói, lammá sabactáni? - Meus Deus, meus Deus, por
que me abandonastes?"
Nos abandonos
do teu coração um eco destas palavras deve trazer a tua vida um sopro de
esperança. Quando a solidão é o ultimo grito da dor que nos fez sentir
abandonados, Cristo é nosso companheiro. Ele sofre em nós.
A ressurreição
é um trabalho de dentro para fora, feito a duas mãos: a mão de Cristo, que nos
ajuda a plantar nosso jardim interior e a tua própria mão, já que você é o
único capaz de mudar tu história. Cristo está te chamando a se abandonar na
amizade dele para que nos teus abandonos interiores ele seja o teu amigo,
aquele que te acompanha.
5ª PALAVRA: "Tenho Sede!"
Que sede temos
hoje? Sede do mundo? Mas se buscamos água em cisterna rachadas (Jr 2, 13) só
encontraremos a aridez da vida. Bem disse o Senhor à Samaritana “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que
beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a
ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. (Jo 4,13-14)
No episódio da
Samaritana, bem como no alto da cruz, Jesus mostra a sede pela salvação de seus
amigos nos ensinando a ter uma dupla sede: a da salvação de nossos amigos, isto
é da elevação de cada um deles até a felicidade – e para isso devemos nos
esforçar para que sejam cada vez melhores e não nos acostumar com as
mediocridades mundanas; e a sede de Deus, por que nossa alma estará sempre
inquieta até repousar em Cristo (Santo Agostinho, Confissões).
Na sede de
Cristo pela salvação de seus amigos, deve também estar a sede de felicidade que
nos toca, por que ser feliz é estar com Deus, devemos querer para todos a mesma
felicidade que livra da culpa, que nos tira do isolamento, que nos leva ao
encontro com Deus e com nosso próximo. Pelo caminho da amizade encontrar a
santidade e nela o dom da felicidade.
6ª PALAVRA: "Tudo está consumado!"
Depois de
passarmos pelas dores de nossas próprias culpas aprendendo a perdoar nossas
faltas e as dos outros. Depois de recuperar o limiar da esperança e buscar a
força da solidariedade, veremos consumada uma Igreja de Fiéis. Uma verdadeira
Igreja de amigos que, chamados desde toda a eternidade, encontram-se na
fraternidade e no amor a finalidade para a qual Deus nos congregou como amigo:
testemunhar aqui a possibilidade do céu pelo amor a si mesmo, ao Próximo e a Deus.
Um caminho que
não se faz sozinho. Um caminho que se faz em comunidade: Eu, o Cristo e meu
Irmão... nesta amizade Deus se revela próximo e salvador.
7ª PALAVRA: "Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!"
Só tuas mãos
senhor, chagadas e abertas, podem nos livrar do egoísmo e da dor. Só tuas mãos,
Senhor, podem nos livrar da incredulidade pela qual o mundo passa. Colocamos
nossa vida em tuas mãos por que não há lugar melhor para nós e assim, por tuas
mãos chagadas, em cada missa, em cada comunhão, como amigos e companheiros de
caminhadas somos entregues ao Pai.
No teu
Espírito, o nosso espírito. Na tua santidade a nossa comunidade para que
recebamos um novo Pentecostes de amor que nos reanime a fé.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
As cinzas da humildade redentora
As cinzas da humildade redentora
Nesta noite, ao serem impostas as cinzas da penitência sobre nossas
cabeças, nos recordaremos, às palavras do ministro, que somos pó e ao pó
retornaremos. A expressão é retirada do livro de Gn 3,9 e evoca o ambiente do
castigo depois do pecado “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que
voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (Gn
3,19). As palavras das consequências do pecado de nossos primeiros pais ainda
ressoam doloridas nos nossos corações após cada pecado que cometemos como se
fossem um tenebroso tema musical que acompanha a cena de nossa história
pessoal. Entretanto, do mesmo castigo nasce a redenção.
A expressão usada em Gn para dizer pó
da terra é ’Adamah (hm'd'a). Sua sonoridade nos faz lembrar imediatamente a
palavra Adam (~d'a') e nos remete àquela
proximidade que temos com a terra de que fomos feitos: “Então Iahweh Deus modelou
o homem com o pó do solo, insuflou em suas narinas um sopro de vida e o homem
se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Aparece no texto de Gn o ciclo de vida e
morte que toca a todo ser humano: do pó nasce e ao pó retorna. Entretanto, algo
no ser humano é diferente, ele recebe um sopro de vida que o faz vivente.
O ser humano é um mistério, um sinal de Deus que carrega em si dois
extremos, a fragilidade do pó da terra e as alturas do sopro celeste. De certo
modo, está relacionado à terra e deve cuidar dela, como deve cuidar de si mesmo
e, por extensão dos seus semelhantes e por outro lado almeja o espiritual, o
celeste, e deve busca-lo como concretização de seus maiores desejos e de si mesmo,
como único modo de sua própria realização.
Se o tenebroso tema do pecado rasga a alma e tira da vida a suave canção da
felicidade, Deus não quis nos deixar condenados às consequências lancinantes da
morte, mas deseja, a cada dia – estejamos onde estivermos – trazer-nos de volta
a experiência de amor consigo. Por isso enviou ao mundo o seu maior dom de
Amor, Jesus.
É no Verbo que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14) que
encontramos o caminho de volta para Deus. Não o caminho de volta para o paraíso
edênico, mas um caminho de volta para o Amor do Pai que se manifestou no seu Filho
e nos toca por meio do Espírito, o caminho para a intimidade com Deus, para uma
vida espiritual no Novo Adão (cf. 1Cor 15,45).
O caminho que Cristo nos deixou fica mais claro e evidente quando vivemos
bem a Quaresma e a Semana Santa como verdadeiros peregrinos de volta para o
Amor: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com
Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e
assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem,
humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por
isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos
os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos
infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é
Senhor.” (Fl 2, 6-11).
Portanto, o caminho de Cristo é o da humildade, reconhecendo nossa condição
de pó. Mas não um reconhecimento revoltado, rebelde como o daqueles que não
suportam a si mesmos. Essa rebeldia é obra do velho pecado que nos fez egoístas
e soberbos. Ao contrário, o caminho encontra-se em reconhecer que em nossa
humilde posição está a condição para nossa salvação. Se Cristo não se apegou ao
seu ser, por que nós nos apegaríamos ao nosso não ser?
Deus ensinou à Doutora da Igreja, Santa Catarina de Sena, que a humildade é
o solo fértil em que as raízes de nossas vidas se lançarão com profundidade no
autoconhecimento que nos levará a contemplar a maravilha do que Deus é em nós.
É exatamente por aí que São Paulo nos guia ao dizer que quando somos fracos é
que se manifesta a fortaleza de Cristo em nós. (Cf. 2 Cor 12, 10): “o que é
fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes;” (1Cor 1,27)
“Mas qual é a estrada? [disse Deus à Santa Catarina] Vou dizê-lo. Toda
perfeição e virtude procede da caridade; a caridade alimenta-se da humildade; a
humildade nasce do auto- conhecimento e da vitória sobre o egoísmo da
sensualidade. Para se atingir o amor filial é necessário, pois perseverar na
cela do autoconhecimento. Nesta cela o homem conhecerá o Meu perdão através do
Sangue de Cristo, atrairá sobre si pelo amor, a Minha caridade, procurará destruir
em si toda má vontade espiritual e temporal...”.
Abrir mão dos próprios orgulhos e deixar-se nas mãos de Deus é um ponto
árduo para o ser humano que está envolvido pelo pecado, mas é exatamente as
cinzas que receberemos e que nos lembrarão que somos pó que nos farão encontrar
a vontade de Deus e, nela, o Amor que nos dá alegria.
Assim, tornam-se gestos sinceros de quem deseja, pela humildade, chegar ao
Amor: a esmola (o desapego do dinheiro, do poder), a oração (desapego de si
mesmo, de suas próprias forças) e o jejum (desapego dos próprios desejos e
instintos).
O ser humano do paraíso está contente por que ao mesmo tempo em que cuida
da terra, cuidando de si, passeia de mãos dadas com Deus. O ser humano do
pecado está entristecido pelo egoísmo que traz em sim, mas o ser humano da Igreja,
que superou o pecado pela humildade, que encontrou nas suas cinzas o motivo de
sua salvação, é Feliz por que não só esta de mãos dadas com Deus, mas participa
do Amor da Trindade e leva esse mesmo amor a toda a Terra!
Do pó viemos e ao pó retornaremos, mas é do pó da humildade que nós
ressuscitaremos! É esse o renascer do ser humano pelo caminho de Cristo, o da
humildade que nos ensina saber quem somos e o que Cristo é em nós.
Pe. Fabiano de Carvalho Silva
Pároco
Nossa Senhora da Conceição – Boa Esperança
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Escolha e escolhas num labirinto de opções
“Respondeu-lhe
o Senhor: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas;
no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que lhe
não será tirada.”
(Lc 10,41)
Escolha e escolhas num labirinto de opções
Um site: milhões de opções a um clique; Uma
TV: milhões de canais à sua escolha; uma vida: milhões de caminhos à sua
frente. E depois? O que escolher? No fio
do novelo que puxamos se encontram milhares de opções de vida e, sem sombra de
dúvidas, todos desejam a melhor parte e, empenham-se nisso. Mas nossas escolhas
têm de fato nos levado à melhor parte? Na ânsia de ter nossos impulsos
satisfeitos recebemos o prêmio de Midas e aquilo que, no início, parecia um bem
inominável, logo se torna um peso insuportável.
Na mitologia grega, o Rei Midas havia
recolhido Sileno que perambulava bêbado e depois de trata-lo com hospitalidade,
Baco concedeu-lhe que escolhesse a recompensa que quisesse. Ávido e egoísta,
Midas pediu a Baco o poder de transformar em ouro tudo o que suas mãos tocassem
– o que lhe foi concedido. Satisfeito, Midas se maravilhava com o fato de que os
galhos que tocava pelo caminho se tornassem ouro. Mas logo percebeu que sua
escolha redundaria em desgraça. Pedindo que lhe preparassem um banquete, notou
que não poderia comer nem beber o que transformara em ouro depois de ter sido
tocado por aquilo que julgara ser um bem no início, mas que se transformara em
uma maldição no final.
Dotados da capacidade de eleição, acabamos desperdiçando
as possibilidades de escolha e, perdidos no meio do vórtice de opções, fazemos
escolhas das quais nos arrependemos, mais cedo ou mais tarde. E se o fio que
puxarmos da nossa vida nos conduz no caminho da avidez e do egoísmo, certamente
o resultado final será sempre insuportável mesmo que tenha sido aprazível no
início.
Para evitarmos o prêmio de Midas é necessário nos
colocarmos diante das possibilidades e considerar o bem e o mal nas opções
apresentadas. É um primeiro passo que raramente é dado por agirmos no impulso e
não considerarmos os motivos.
Aliás, as palavras impulso e motivo vêm bem a
calhar. Enquanto o impulso supõe uma força externa que, de repente, nos projeta
para algo, uma necessidade imperiosa, muitas vezes irresistível, que pode levar
à prática de atos descontrolados ou irrefletidos o motivo é interno, determina
ou causa alguma coisa, é a finalidade com que se faz alguma coisa.
Um carro quando precisa de pessoas para dar
impulso, está quebrado. Mas quando funciona como deve, o combustível produz a
força que o move. Um carro bom funciona pelo motor, uma pessoa boa funciona por
motivos e não impulsos. Só quando consideramos bem a escolha e o que nos move a
ela, conseguimos atingir o bem que desejamos e evitar o mal que não queremos.
A escolha do mal é um corredor sem saída no
labirinto das opções e isso, por si só, já é compreensível: o mal tira a
liberdade, escraviza e o resultado é a infelicidade. O que no início parecia
uma boa escolha, por causa de nossos impulsos (e o egoísmo é o primeiro deles)
se torna enfadonho e insuportável.
Por isso um segundo passo é ter cuidado na
escolha do bem, porque não basta escolher o bem, é necessário escolher entre os
bens a melhor parte. Saber escolher o bem é a arte de viver feliz e no
labirinto de opções, um fio deve conduzir as escolhas: O Bem que nos torna
livres. Cada vez que escolhemos o Bem nos tornamos mais livres e quanto mais
livres mais escolheremos o Bem, recolhendo a felicidade de cada ato.
Consiste, por tanto, a felicidade, na escolha
do Bem maior. Não era um mal o cuidado das tarefas da casa e dos afazeres do
tempo, mas Marta, diante do Cristo, escolhe um bem menor e por isso é
censurada. Quando escolhemos o bem menor o resultado é sempre o mesmo:
inquietação e preocupação. É necessário cuidado para não esbarrar nas paredes
depois de ter evitado os becos do mal no labirinto de opções, pois a melhor
parte nunca nos será tirada.
Entre as escolhas e a Escolha, a liberdade é o
fio que nos guia para fora do labirinto do egoísmo do Ávido Midas porque diante
do Eterno, o efêmero fica insignificante e a melhor parte é reconhecida pela
razão e querida pela vontade nos levando à liberdade e em consequência, à
Felicidade.
Pe. Fabiano de Carvalho Silva
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Uma palavra: VIDA!
Uma palavra: VIDA!
“O ministro Marco
Aurélio de Mello, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação que
pretende descriminalizar o aborto de fetos anencéfalos (sem cérebro), votou a
favor da medida nesta quarta-feira (11) e afirmou que dogmas religiosos não
podem guiar decisões estatais e que bebês com ausência parcial ou total de
cérebro não têm vida.”
Vimos, ao revés de toda opinião pública do país,
os ministros do STF declararem legítimo o aborto de anencéfalos. Um retrocesso
no humanismo, segundo Reinaldo
Azevedo. Mas isso não é tudo!
Não parece extremamente eivada de ideologismo o
entendimento do STF? Sim, se levarmos em conta que a maior parte dos ministros
do STF são oriundos das indicações do governo petista, que bem sabemos, militam
sob o estandarte da morte e usam para isso o mote já velho, batido e discutido
que em letras garrafais se apresenta: “o estado é laico”!
Um erro hediondo, já que o Estado, no entendimento
do STF está produzindo um dogma: “Quando começa a vida”. Caberia ao estado o
papel que quer desempenhar? Todas as vezes que o judiciário perde a noção de
seu papel e decide “fazer as leis” perde também sua isonomia e seu objetivo.
O argumento dos religiosos não é religioso! É diminuir
o argumento da dignidade humana reduzir o debate ao campo religioso quando na
verdade trata-se de uma defesa expressa e clara da vida humana em qualquer de
seus estados. No que toca o ser humano, o mais digno é que ele nasça, viva e
morra naturalmente. O papel do Estado, em qualquer um de seus poderes, não é
outro senão defender essa mesma vida. Isso reivindicamos e isso defendemos.
O entendimento do STF não corresponde à verdade e,
exatamente por isso é um dogma contra o homem, já que nega a um feto (quer a um
anencéfalo ou a qualquer outro) o direito a exercer o dom mais precioso e gratuito,
isto é, a vida.
É uma falácia dizer que “Hoje é consensual no
Brasil e no mundo que a morte se diagnostica pela morte cerebral. Quem não tem
cérebro não tem vida”, como disse Marco Aurélio de Mello. Uma coisa é o cérebro
que parou de funcionar deixando o corpo sem vida, outra é um corpo que, tendo
uma vida, mesmo que vegetativa, tenha seu direito de existir negado. Não se
pode colocar no mesmo patamar duas coisas, visto que uma coisa é a morte
natural, outra é a interrupção de uma vida, mesmo que vegetativa. O erro lógico
está na questão do princípio e do fim, não se pode julgar com os mesmos
critérios o começo e o fim.
O argumento sobre o qual se apoiam alguns
ministros para rechaçar o argumento ontológico dos religiosos se configura como
discriminatório uma vez que não julga a matéria dos argumento, mas os que
argumentam, como se a razão dos religiosos não fossem, pelo fato de partirem de
religiosos, legítima.
Aqui o que está em questão é a dignidade da pessoa
que, ao ser gerada, já tem seus direitos independente de suas condições físicas.
Um ser humano é um ser humano a medida que é gerado assim. É simples de um gato
não sai um ser humano, assim como de um ser humano não sai um não humano. Se é
humano, tem direito à vida. Negá-la é retornar à barbárie.
Não se trata de um direito, o fato de decidir quem
vive e quem morre! Se há o mínimo de
função vegetativa, já configura-se como vida humana, então por qual motivo
negar esse direito. Veja que não se trata de um privilégio, mas de um DIREITO!
A pergunta a ser feita é fácil: aquele anencéfalo
é um ser humano? Se dizer que não, o absurdo tomou conta da razão, mas se
disser que sim, então por que negar a ele o direito a nascer?
Uns poderiam ainda argumentar o ponto de vista da
mãe que não quer ou não tem “condições” de levar até o fim aquela gestação. Mas
voltamos ao ponto inicial: é direito facultado a alguém negar um direito? A resposta
é óbvia: NÃO!
Em fim, é de fato um retorno ao embotamento da
razão chegar ao juízo que os ministros, viciados por ideologismos, chegaram.
Paramos de novo diante do entrave da razão desligada da verdade que negou a
milhares de judeus o direito à vida. A razão que deveria nos levar às luzes,
nos colocou diante do mal no holocausto e, hoje, nos coloca diante do aborto.
O aborto é claramente a saída de volta para a
negação da dignidade do ser humano: uma negação à VIDA!
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Verdades e Verdade
Alguns minutos
na frente da TV, algumas folheadas nos jornais e entre uma música e outra no
rádio, percebemos que estamos evoluindo em termos de marketing no mass mídia. Cada vez mais elaboradas, as
propagandas convencem mais e mais consumidores, “convertendo-os” aos seus
produtos, convencendo-os de suas verdades e encarcerando-os a idéias como:
“obedeça a sua sede”, “você não pode viver sem ele” ou “fazemos tudo por você”
entre outros chavões que se cristalizam em nossas mentes.
Contudo, a
evolução do marketing significa, quase sempre, a involução do homem e seu senso
de verdade. Muito embora haja aspectos muito positivos, existem também os
negativos. Não queremos condenar o marketing, mas desejamos colocar um
contraponto e traçar um panorama que evite a deturpação da verdade e favoreça
uma cultura evangélica autêntica onde os reais valores de vida possam ser
experimentados em sua profundidade. Uma cultura como a nossa precisa receber um
grande choque para restabelecer no homem uma humanidade que caminhe para seu
Destino.
Estas
propagandas, que ocultam sob corpos bonitos e imagens bem produzidas nocivas
idéias de “verdade”, vêm perpassando nossa geração e convencendo conscientes e
inconscientes de uma perigosa realidade que vem degradando nossa humanidade. Se
há tempos atrás a verdade era pautada na adequação do intelecto à coisa, e se
dizer a verdade significava fazer encontrarem-se o ser e o pensamento numa
perfeita harmonia no plano da realidade objetiva, hoje temos uma sutil mudança.
O que ocorre é
que a verdade da coisa foi deslocada da realidade objetiva para o plano subjetivo.
A verdade vem sendo arrastada do campo da objetividade para o obscuro
subjetivismo e lá acorrentada, uma vez que as perspectivas sobre a vida vêm
mudando de acordo com os novos focos de interesse, que voltam seus olhos
invertidos para o ter em detrimento do ser, e conseqüentemente atraem a cobiça
pelo lucro. Desta ótica a verdade passa a ser enclaustrada no que convém a cada
um segundo a sua necessidade momentânea e particular. A verdade figura então
como adequação do pensamento e da coisa ao interesse individual naquele
restrito momento.
Essas idéias
não nos chegam sem gerar uma conseqüência preocupante: a tendência
individualista que rompe com a índole comunitária presente no próprio homem
desde os primórdios, onde se associava e estabelecia o sentimento de
solidariedade que deveria evoluir para um sentido de presença e acolhida do
outro, mas que foi deturpado para uma tolerância do outro e que logo
redundaria, com o auxilio da economia de mercado, no sentido de competição e superação
do outro rompendo os laços de fraternidade na espécie humana, fazendo da vida
uma competição insana e autodestrutiva, uma vez que destruir o outro significa
destruir-se a si próprio.
O marketing
segue o princípio da venda do produto, isto é, o modo de apresentação do
produto deve convencer de que este é, não só o melhor, mas o necessário.
Expressões como “agregar valores”, “valor de mercado”, “tática de
convencimento” e “público alvo” já nos dão pistas de para onde caminha e o que
está por traz de cada “inocente” reclame publicitário diariamente veiculado nas
programações de entretenimento eivadas de sentido comercial.
Instalou-se
uma cultura de compra e venda que faz a vida ser reduzida a um grande mercado
que deseja o lucro. Assim, ficam enfraquecidos conceitos e experiências de
gratuidade, de amizade e de solidariedade. O “uso” das coisas começa a migrar
para o uso do outro. A visão do outro como alguém que nos proporciona algum
tipo de “lucro” subverte a pureza das intenções e relações.
Como
conseqüência, o ser humano desfragmenta-se, porque perde o senso de comunidade
e comunhão, por tanto, limita seu existir, perde sua perspectiva de futuro ensimesmando-se
ao hoje fugaz que lhe escapa por entre os dedos e não traz a satisfação
desejada. Seu desejo de eternidade é frustrado e sua busca acaba redundando
numa solidão em meio à multidão.
Diante desse
panorama, surge uma capital pergunta inquietante: Como anunciar alguém que
ensina a doar, a perder, a ser o ultimo, a viver segundo o espírito e que
priorizam um depois?
Essa
inquietante realidade tem sido causa de preocupações teológicas e pastorais. Muitas
respostas vêm sendo propostas: uma libertação social do homem que reivindica
seus direitos sociais para uma vida menos indigna; um virar-se única e
exclusivamente para as realidades pseudo-sobrenaturais que pretendem o céu já
aqui ou uma simbiose de religiões que dão, a principio, uma sensação de
tranqüilidade espiritual, mas que, tão logo tal tranqüilidade desapareça,
muda-se de religião em busca de “encontrar-se”.
Parece que
estas respostas propostas ao longo do tempo são insatisfatórias, quer por não preencherem
a ânsia de eternidade presente no homem, quer por serem mutiladas e descentralizadas.
Todas elas se tocam num ponto: pretendem que já neste tempo haja uma societas perfectas, contudo o Reino de
Deus não é deste mundo. Deste modo, apresentar planos que vigorem somente no
plano cronológico não constitui resposta valida, uma vez que o próprio núcleo
essencial do cristianismo prega uma comunhão que alcança o agora, mas que está
para o além.
“Num sentido, nós vamos viajando, sempre viajando como sem saber aonde
vamos. Noutro sentido já chegamos. Não podemos nesta vida chegar à perfeita
posse de Deus: É por isso que estamos viajando e nas trevas. Já possuímos,
porém, Deus pela graça. Nesse sentido então foi que chegamos e ora residimos na
Luz...”
(Thomas Merton)
Perceber que o
homem está “em via” é o primeiro passo para superar o problema, isso significa
que ele está e não está completo; a sua luta cotidiana ocorre num espaço e num
tempo: sua vida. Mas enquanto caminha, sabe que já possui em si qualquer coisa
de mistério, qualquer coisa que o faz sentir desde já a realidade de uma
promessa, e por isso se sabe completo, sente a perfeição em si, pois reconhece
que existe nele uma dignidade ímpar.
Por outro
lado, podemos perceber que estamos todos nos construindo e que o instrumento
principal para a construção do homem é sua liberdade de agir desta ou daquela
forma. O homem em via descobre que enquanto está nesta condição não há nada,
absolutamente nada que o complete ou que o satisfaça. É incompleto enquanto é
perfectível. Há com isso uma abertura para o transcendente e uma possibilidade
de sair da crise da desfragmentação pela possibilidade da re-construção e
superação de si mesmo.
Recolocar o
homem como peregrino restaura o senso de Esperança, por que se caminha, caminha
rumo a um destino. Assim podemos conceber a realidade da salvação, isto é, a
participação na vida do próprio Deus. O homem, que por si só jamais poderia
participar da eternidade Divina recebe, com a promessa e concretização da
Aliança em Cristo, a Esperança de receber o inaudito. Assim eram os primeiros
cristãos: tinham diante dos olhos a perda e o que esperavam era o INVISÍVEL.
Disso nós devemos alimentar nossa fé: da esperança de receber aquilo que não se
vê. Nisso vivemos o mistério!
Porém, para
chegar a esse mistério, é necessário um caminho de vida: A VERDADE. Não uma
verdade que muda ao sabor da moda ou algo que convenha a determinado momento,
mas uma verdade essencial. Esse é um caminho de mística: crer que o invisível
irá nos conduzir ao Eterno, crer que em meio às coisas que passam podemos tocar
o que não passa.
O homem é
criado para o alto e por isso nos revolvemos em busca do Eterno na
verticalidade da verdade que se encontra e se toca no vértice da vida com a
horizontalidade da humanidade. Essa verdade nos toca de forma arrebatadora
quando nos permitimos ser atraídos por ela e ela mesma muda nossas vidas, não
mais de acordo com uma mentalidade mercado, mas segundo a profundidade da
essência do mistério da Vida.
Em fim, para
superar a verdade de mercado, proporcionada pela mentalidade de marketing do mass mídia, que traz em si muitos danos
morais ao homem, é necessário descobrir que neste peregrinar que chamamos de
vida, estamos em busca de nosso fim último, o desejo de eternidade, e que para
chegar a bom termo é necessário viver em busca daquilo que não se vê. Descobrir
que nos agarramos ao que há de Bom e que tudo governa, como uma mão invisível
que conduz a história rumo a um triunfo final onde a Verdade será Vivida
plenamente na Eternidade. Nós, cristãos, caminhamos neste mundo como se
víssemos o invisível.
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