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domingo, 6 de outubro de 2013

Seis passos para viver a fé

Homilia da missa de 06/10/2013 que gostaria de partilhar com os amigos.

http://www.4shared.com/mp3/TitjxE2Q/seis_passos_para_viver_a_fe.html?

Deus seja bendito nos seus dons!

Padre Fabiano de Carvalho Silva

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Aos Católicos

Estimados filhos,

Como Pai espiritual, desejo dirigir-me a cada um de vocês e ombrear-me aos anseios mais profundos da população de Rio Bonito. Sabemos que desejamos muitas melhorias para nossa cidade. Igualmente, é licito ao povo a manifestação legítima de seus anseios em todos os meios de direito: manifestações, passeatas, redes sociais, meios de comunicação devem servir ao bem da pessoa, de cada pessoa e de todas as pessoas.

Entretanto, gostaria também de ponderar, como tenho ponderado nas redes sociais, o caráter deste movimento em específico. Vemos por toda a união serem deflagradas manifestações publicas que alçam ao vandalismo e à desordem, se bem que não seja a postura da grande maioria. Não obstante às melhores intenções, não é lícito ao cristão tomar parte de movimentos que visem à anarquia e a violação de direitos de quaisquer dos lados.

O Movimento Passe Livre (MPL), que deflagrou as manifestações não tem raízes legítimas. Na ultima revista Época (n. 786) de junho de 2013 o movimento declarou que “A única maneira é parar o trânsito”, diz a estudante de letras da Universidade de São Paulo (USP) Raquel Alves, de 20 anos, militante do MPL. ‘Infelizmente, o vandalismo e a violência são necessários, para que apareça na mídia. Se saíssemos em avenidas gritando musiquinha, ninguém prestaria atenção’” o que invalida todas as suas atividades e as que decorrem dela.

Sabe-se que o MPL inspira-se no “antropólogo anarquista David Graeber, um ex-professor da Universidade Yale que se transformou em guru dessa juventude, afirma que o Occupy Wall Street se caracterizava pela recusa de lideranças tradicionais. Por oposição a partidos políticos ou organizações hierarquizadas – chamadas, no jargão dos ativistas, de “verticais” –, ele postulava um movimento sem hierarquia – “horizontal”.” Por isso, convém explicitar que a Anarquia não é legítima.

O Beato Joao Paulo II, na sua Mensagem para a Celebração do XXXVIII Dia Mundial da Paz, em 1° De Janeiro De 2005 declara: “Contemplando a situação atual do mundo, não se pode deixar de constatar uma impressionante difusão de numerosas manifestações sociais e políticas do mal: desde a desordem social à anarquia e à guerra, da injustiça à violência contra o outro e à sua supressão. Para orientar o seu próprio caminho entre as solicitações opostas do bem e do mal, a família humana tem urgente necessidade de valer-se do património comum de valores morais que o mesmo Deus lhe deu. Por isso, a quantos estão decididos a vencer o mal com o bem, São Paulo convida a cultivar atitudes nobres e desinteressadas de generosidade e de paz (cf. Rm 12,17-21).” (Grifo nosso).

Por isso temos dado eco à voz do Beato João Paulo II que nos convida a Não nos deixarmos vencer pelo mal, mas antes a vencer o mal com o Bem e reiteramos que o caminho não é o da ilegitimidade.
Como minha bênção à todas as pessoas de bem que desejam uma cidade melhor, os meus mais sinceros protestos de estima.

Pe. Fabiano de Carvalho Silva

Pároco de Nossa Senhora da Conceição de Boa Esperança

terça-feira, 21 de maio de 2013

Homilia

Amigos,

Achei essa homilia nos arquivos do meu antigo computador. Não ouvi toda e não lembro de quando é  (provavelmente é de páscoa ou pentecostes, mas não sei muito bem). Espero que gostem!

Pe. Fabiano de Carvalho

http://www.4shared.com/mp3/mZfcQnTK/Pe_fabiano_2.html?

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Mensagens aos Legionários de Boa Esperança


Caríssimos oficiais da Cúria Imaculada Conceição,

Pelas numerosas atividades que nos ocupam os finais de semana, nossa presença tem se tornado rara neste momento em que vós vos reunis. Entretanto, a fim de não deixar passar esta ocasião decidi escrever-vos estas reflexões com as quais comunico algum fruto espiritual ao mesmo tempo em que reforço minha comunhão com a Cúria da Legião de Maria e os presidia de nossa paróquia.
No dia primeiro de maio passado, celebramos o dia de São José Operário, título com o qual se reconhece no, Esposo da Virgem, as virtudes laboriosas que o impeliram no ofício de ser o chefe da Sagrada Família. Bem se sabe pelas Sagradas Escrituras que São José era carpinteiro (cf. Mt 13,55) e que ensinou a Jesus Cristo sua arte (cf. Mc 6,3).
Se considerarmos bem, o trabalho que exercemos nos aproxima de Deus. Pelo trabalho da Criação, Deus dá a vida a todas as coisas e, pelo trabalho que exercemos, transformamos o mundo e as coisas criadas por Deus para aperfeiçoar e cuidar de nossas vidas. Na experiência de amor por Deus e pela sagrada família, São José se torna para nós um exemplo de quem, diante de Deus, trabalha para o sustento da Sagrada Família, transformando, em sua carpintaria, as horas de esforço em louvor ao Pai.
Contudo, o trabalho de São José não só estava em ordem do sustento material da Sagrada Família, mas também estava em ordem do sustento espiritual dela e de toda a Igreja. Um trabalho espiritual que poderíamos considerar em três características: Escuta obediente, Zelo puríssimo e Comunhão amorosa.

I. Escuta obediente

“José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo... Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa”. (Mt 1,19-20.24)

Toda obediência procede de uma experiência de escuta da Palavra de Deus que toca o coração do homem e o muda, convertendo-o para o céu. O trabalho espiritual de São José partiu da escuda da Palavra de Deus trazida pelo mensageiro do Senhor que lhe apareceu em sonho.  Disposto a seguir seus próprios projetos, teve seus planos mudados por aquela manifestação de Deus.
A escuta obediente levou José a mudar seu interior para adequar-se aos projetos de Deus. Poderíamos dizer, sem sombra de dúvidas, que o mesmo Espírito que fecundou o puríssimo ventre de Maria também fecundou a vontade puríssima de São José para que ele obedecesse à vontade de Deus.
Também o Legionário deve estar atento à Palavra de Deus que se lhe dirige todos os dias para atingir a obediência. Muitas vezes esta palavra vem mediada por mensageiros que Deus lhes provê para apontar o caminho da obediência e fazer de sua própria vontade a vontade de Deus.

II. Zelo Puríssimo

“Depois de sua partida, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar. José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito” (Mt 2,13-14).

São José é o guarda dos dois maiores presentes de Deus para a Igreja e, por ela, para a humanidade: Jesus e Maria. E para cuidar deles não mediu seus esforços. Durante a noite levantou-se para leva-los para longe das ameaças do mal. O zelo que José tinha pela Sagrada Família o impedirá de pensar em seu próprio conforto ou em horas cômodas ou incomodas para executar aquilo que Deus lhe mandou. Sabia que era o melhor para os Tesouros de que era guardião fazer como Deus mandara e por isso o fez!
Se o Legionário não aprender com São José a não medir seus esforços por zelar por Jesus e Maria não cumprirá seu papel de cristão. Dia e noite deve cuidar para que tais santas presenças não se apaguem no mundo e, por isso, deve trazer em seu coração o prestígio por Jesus e Maria zelando para que suas ações não expulsem de seus corações tão doces presenças, sob pena de terem sua missão frustrada. É necessário, pois, um zelo puríssimo para proteger a presença de Cristo e da Virgem Maria em nossas vidas, pois o mal, ainda hoje, deseja mata-los em nós.

III. Homem de comunhão amorosa

“Despertando, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa”. (Mt 1,24)

São José, ao receber a Virgem Maria em sua casa também recebeu Jesus em sua vida e por isso estabeleceu uma verdadeira comunidade de comunhão e amor. A comunhão é a mútua acolhida entre as pessoas e o amor é o cuidado gerado quando a comunhão é real: acolhida e cuidado, portanto, são duas características através das quais podemos reconhecer a comunhão e o amor.
Não somos também chamados a essa dupla realidade de comunhão e amor, acolhida e cuidado? Cada Legionário deve encontrar nestas virtudes do Santo Nutrício a inspiração para sua própria vida espiritual na qual não se pode abrir mão da acolhida de Maria e, por ela, de Jesus em nossas almas.
Assim, queridos Legionários, vemos como São José nos é inspiração para que busquemos também nós a experiência de Escuta obediente, Zelo puríssimo e Comunhão amorosa. Não é sem motivos que o vosso manual recomenda a estima a São José dizendo: “Para o seu amor se mostrar poderoso em cada um de nós, é necessário que o nosso procedimento para com ele reflita a compreensão do intenso afeto que nos consagra. Jesus e Maria, agradecidos a José pelos seus carinhos e trabalhos, traziam-no sempre no coração. Procedam do mesmo modo os legionários” (Manual, p. 178). 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Sermão das Sete Palavras


Sermão das Sete Palavras

Introdução
As sete últimas palavras de Cristo na cruz, para rasgar o véu do templo (cf. Mt 27,51), e nos colocar diante do Pai, nos transmitem um testemunho que passa pelo caminho da dor, do abandono, das impossibilidades, da misericórdia e do perdão. No alto da cruz está um homem que sofre nossas dores e nelas – nas dores mais agudas da alma humana – se faz amigo das horas de solidão, das dificuldades dos apertos e sofrimentos.
Muitas e muitas vezes nos sentimos perdidos, solitários, abandonados dentro de nossa própria casa, de nosso trabalho e de nossa vida. Um abandono que nos leva a tristeza de não enxergar esperanças. Jesus, na solitária cruz, não deixa que a amargura lhe tome o coração, mas, ao contrário, mesmo sentido as dores de sua Paixão nos abre um caminho para fora de nosso isolamento.
Um caminho que passa do interior para o outro, que passa da solidão para o encontro, da dor para a alegria e nos ensina que toda a redenção começa no coração do homem e o leva até o Pai. Jesus saiu de sua solidão para um encontro com seu Pai e neste encontro nos conduziu consigo até o alto.
E nós? Que papel nos cabe neste caminho? Quais os passos que devemos dar? Se percebermos, temos cada vez menos conseguido lidar com várias coisas que nos afligem: os homens cada vez menos conseguem lidar com suas questões interiores, com suas dores, com suas vidas; as mulheres cada vez mais audaciosas nos seu ambientes de trabalho são cada vez menos donas de seu interior e vez por outra se submetem a situações que as colocam num vale de solidão; os jovens, cada vez mais ávidos de uma liberdade sempre acabam se entregando à ciranda da vida que não os deixam senão com uma imensa culpa e, mergulhados na tristeza de seus atos, vivem uma vida que carece de sentido e expectativas.
Essa é a dor da nossa cruz: a incompreensão, o abandono, a pobreza interior que amesquinha o ser humano, a dolorosa cruz que nos marca a vida interior...
É nesse momento que Jesus, no alto da Cruz nos da sete passos para sair das agitações interiores para uma liberdade que nos permite um encontro com Deus e nele descobrirmos um amigo interior que nos faz sair da solidão para a Amizade.

1ª PALAVRA: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem”.
Não sabemos o que fazemos? Será que poderíamos tomar para nós essa palavra? Quando nossos atos não correspondem ao amor a que nos propusemos, quando nossa hipocrisia não nos permite a auto crítica que nos tempera em nossos arrazoados, muitas vezes cheios das melhores intenções, mas eivados de arrogância e  tirania? À primeira vista o modo como nos cobramos, rígidos e implacáveis, não nos permite ser receptores deste perdão.
Mas ali no cenário do calvário as palavras dirigidas aos algozes de Cristo ressoam por toda a terra em todo tempo incluindo a cada um de nós na história, até hoje!
Se nossa escola de vida nos permite a dureza, a radicalidade, a implacabilidade conosco e com os outros, a escola da cruz oferece a lição do perdão. Não somos perdoados pelo quanto merecemos – nós, por nós mesmos não o merecemos. Somos perdoados pelo quanto Cristo nos amou e se é esse amor a medida do perdão, Cristo, que ama sem limites oferece um perdão que é infinito.
Por isso também nós devemos nos perdoar. Quero dizer que cada um deve perdoar a si mesmo antes de tentar perdoar aos outros. Você pode hoje olhar para dentro de si mesmo, como quem afrouxa o nó da forca do seu próprio juízo e sentir-se presente diante de um juiz mais misericordioso que nós mesmos.
Quando nos aproximamos de Jesus Crucificado para ouvir de seus lábios, sôfregos pelas dores que o tocam o corpo e a alma as palavras de perdão, devemos lembrar que somos, enquanto seres humanos, imperfeitos e limitados e, se isso nos causar a dor, temos alguém que, como um companheiro de viagem, um amigo, nos fez perceber que nossa perfeição esta exatamente centrada na capacidade de sermos melhores a cada dia e não de nos reconhecermos prontos e acabados... um homem que não tem espaços abertos para o crescimento é um homem morto, mas aquele que na solidão de seus sofrimentos consegue encontrar uma porta aberta para ser melhor, isto é, para transcender... um amigo foi a nossa frente e nos ensinou a não parar na cruz da auto punição, mas ir até a ressurreição de nossa consciência: Pai, perdoai-nos por que não sabemos que o amor é melhor do que a culpa.

 2ª PALAVRA: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”
Uma promessa? Não, amigos não fazem promessas! Amigos realizam! Jesus ao olhar para o ladrão não o escolhe por ter sido uma pessoa com uma trajetória de vida sem erros, não o elege por ser irrepreensível, não o faz amigo por ser melhor do que todos os outros. Esses critérios não são os critérios do Cristo, mas os nossos.
Somos assim nas nossas escolhas: vemos primeiro o exterior, vemos primeiro os benefícios, escolhemos primeiramente aqueles que nos possibilitam quaisquer crescimentos. Mas quando fazemos isso não nos colocamos abaixo? Quando discriminamos alguém, o colocamos em grau inferior, mas quando supervalorizamos alguém, NOS COLOCAMOS em grau inferior.
Jesus da o maior dom, o da felicidade, isto é, o céu, a um ladrão!
Também não reside a bondade de Cristo no fato de ser o seu “novo amigo” um ladrão. Não é o fato de ser minoria que faz de alguém privilegiado. No mundo de hoje, vemos a ditadura das minorias que viram no fato de serem, de algum modo, discriminados um direito a, como quem paga com a mesma moeda, discriminar. O valor do ser humano reside nele mesmo enquanto tem algo de divino em si.
Jesus da o maior dom, o da felicidade, isto é, o céu, a alguém que se sabia limitado e culpado, mas que acreditou na misericórdia inocente e ilimitada de Deus.
Também nós nos encontramos hoje, crucificados pelo tempo presente: nossos conflitos interiores são nossos algozes; nossa solidão, o açoites; nossa impaciência, os cravos e nossas culpas a lança que perfura o nosso peito com sentimentos de dor e rejeição por nós mesmos e por outros.
Mas também hoje estas palavras nos atraem para Cristo, como ele mesmo havia prometido (Cf. Jo 12, 20-33). Mesmo neste mundo, ao encontrarmos Jesus, nosso amigo interior que está sempre conosco, podemos viver à porta do paraíso, como diz o salmista: “Verdadeiramente, um dia em vossos átrios vale mais que milhares fora deles. Prefiro deter-me no limiar da casa de meu Deus a morar nas tendas dos pecadores”. (Sl 83,11).
Só alguém que se sente perdoado, pode perdoar e por isso, a comunidade de amigos é a Igreja do Perdão onde se poder oferecer e receber a graça da salvação todos os dias no próximo, na palavra e no pão eucarístico sinal de reconciliação com Deus.
A palavra que ouvimos de Cristo nos dá a graça de estar no limiar do céu, como comunidade eclesial, viver na alegria do perdão e da amizade.


3ª PALAVRA: "Mulher, eis aí o teu filho. Filho eis aí a tua Mãe!"
Neste caminho de salvação que nos tira do egoísmo e nos coloca na fraternidade e na amizade, um rosto nos é dado: Maria, a Virgem do Amor Perfeito. Sofrendo no coração e na alma o que Cristo sofria no seu corpo, Maria é a primeira aluna da escola do amor.
A dor de ver seu filho não a torna avessa ao mundo, mas o acolhe com amor como seus filhos, no Cristo. Ai está tua mãe, pronta a te acolher, não deverias tu também, de prontidão acolhe-la? E acolhendo-a como Mãe do Amor Perfeito, acolher também a todos os teus irmãos?
Em Maria o exemplo do amor que supera a dor, o amor que supera a mágoa, o amor que acolhe!
Filho, eu te digo hoje, como Cristo no alto da cruz: Eis ai o exemplo de tua mãe!

4ª PALAVRA: "Elói, Elói, lammá sabactáni? - Meus Deus, meus Deus, por que me abandonastes?"
Nos abandonos do teu coração um eco destas palavras deve trazer a tua vida um sopro de esperança. Quando a solidão é o ultimo grito da dor que nos fez sentir abandonados, Cristo é nosso companheiro. Ele sofre em nós.
A ressurreição é um trabalho de dentro para fora, feito a duas mãos: a mão de Cristo, que nos ajuda a plantar nosso jardim interior e a tua própria mão, já que você é o único capaz de mudar tu história. Cristo está te chamando a se abandonar na amizade dele para que nos teus abandonos interiores ele seja o teu amigo, aquele que te acompanha.

5ª PALAVRA: "Tenho Sede!"
Que sede temos hoje? Sede do mundo? Mas se buscamos água em cisterna rachadas (Jr 2, 13) só encontraremos a aridez da vida. Bem disse o Senhor à SamaritanaTodo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”. (Jo 4,13-14)
No episódio da Samaritana, bem como no alto da cruz, Jesus mostra a sede pela salvação de seus amigos nos ensinando a ter uma dupla sede: a da salvação de nossos amigos, isto é da elevação de cada um deles até a felicidade – e para isso devemos nos esforçar para que sejam cada vez melhores e não nos acostumar com as mediocridades mundanas; e a sede de Deus, por que nossa alma estará sempre inquieta até repousar em Cristo (Santo Agostinho, Confissões).
Na sede de Cristo pela salvação de seus amigos, deve também estar a sede de felicidade que nos toca, por que ser feliz é estar com Deus, devemos querer para todos a mesma felicidade que livra da culpa, que nos tira do isolamento, que nos leva ao encontro com Deus e com nosso próximo. Pelo caminho da amizade encontrar a santidade e nela o dom da felicidade.

6ª PALAVRA: "Tudo está consumado!"
Depois de passarmos pelas dores de nossas próprias culpas aprendendo a perdoar nossas faltas e as dos outros. Depois de recuperar o limiar da esperança e buscar a força da solidariedade, veremos consumada uma Igreja de Fiéis. Uma verdadeira Igreja de amigos que, chamados desde toda a eternidade, encontram-se na fraternidade e no amor a finalidade para a qual Deus nos congregou como amigo: testemunhar aqui a possibilidade do céu pelo amor a si mesmo, ao Próximo e a Deus.
Um caminho que não se faz sozinho. Um caminho que se faz em comunidade: Eu, o Cristo e meu Irmão... nesta amizade Deus se revela próximo e salvador.

7ª PALAVRA: "Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito!"
Só tuas mãos senhor, chagadas e abertas, podem nos livrar do egoísmo e da dor. Só tuas mãos, Senhor, podem nos livrar da incredulidade pela qual o mundo passa. Colocamos nossa vida em tuas mãos por que não há lugar melhor para nós e assim, por tuas mãos chagadas, em cada missa, em cada comunhão, como amigos e companheiros de caminhadas somos entregues ao Pai.
No teu Espírito, o nosso espírito. Na tua santidade a nossa comunidade para que recebamos um novo Pentecostes de amor que nos reanime a fé.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As cinzas da humildade redentora



As cinzas da humildade redentora

Nesta noite, ao serem impostas as cinzas da penitência sobre nossas cabeças, nos recordaremos, às palavras do ministro, que somos pó e ao pó retornaremos. A expressão é retirada do livro de Gn 3,9 e evoca o ambiente do castigo depois do pecado “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (Gn 3,19). As palavras das consequências do pecado de nossos primeiros pais ainda ressoam doloridas nos nossos corações após cada pecado que cometemos como se fossem um tenebroso tema musical que acompanha a cena de nossa história pessoal. Entretanto, do mesmo castigo nasce a redenção.
 A expressão usada em Gn para dizer pó da terra é ’Adamah (hm'd'a). Sua sonoridade nos faz lembrar imediatamente a palavra Adam (~d'a') e nos remete àquela proximidade que temos com a terra de que fomos feitos: “Então Iahweh Deus modelou o homem com o pó do solo, insuflou em suas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Aparece no texto de Gn o ciclo de vida e morte que toca a todo ser humano: do pó nasce e ao pó retorna. Entretanto, algo no ser humano é diferente, ele recebe um sopro de vida que o faz vivente.
O ser humano é um mistério, um sinal de Deus que carrega em si dois extremos, a fragilidade do pó da terra e as alturas do sopro celeste. De certo modo, está relacionado à terra e deve cuidar dela, como deve cuidar de si mesmo e, por extensão dos seus semelhantes e por outro lado almeja o espiritual, o celeste, e deve busca-lo como concretização de seus maiores desejos e de si mesmo, como único modo de sua própria realização.
Se o tenebroso tema do pecado rasga a alma e tira da vida a suave canção da felicidade, Deus não quis nos deixar condenados às consequências lancinantes da morte, mas deseja, a cada dia – estejamos onde estivermos – trazer-nos de volta a experiência de amor consigo. Por isso enviou ao mundo o seu maior dom de Amor, Jesus.
É no Verbo que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14) que encontramos o caminho de volta para Deus. Não o caminho de volta para o paraíso edênico, mas um caminho de volta para o Amor do Pai que se manifestou no seu Filho e nos toca por meio do Espírito, o caminho para a intimidade com Deus, para uma vida espiritual no Novo Adão (cf. 1Cor 15,45).
O caminho que Cristo nos deixou fica mais claro e evidente quando vivemos bem a Quaresma e a Semana Santa como verdadeiros peregrinos de volta para o Amor: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.” (Fl 2, 6-11).
Portanto, o caminho de Cristo é o da humildade, reconhecendo nossa condição de pó. Mas não um reconhecimento revoltado, rebelde como o daqueles que não suportam a si mesmos. Essa rebeldia é obra do velho pecado que nos fez egoístas e soberbos. Ao contrário, o caminho encontra-se em reconhecer que em nossa humilde posição está a condição para nossa salvação. Se Cristo não se apegou ao seu ser, por que nós nos apegaríamos ao nosso não ser?
Deus ensinou à Doutora da Igreja, Santa Catarina de Sena, que a humildade é o solo fértil em que as raízes de nossas vidas se lançarão com profundidade no autoconhecimento que nos levará a contemplar a maravilha do que Deus é em nós. É exatamente por aí que São Paulo nos guia ao dizer que quando somos fracos é que se manifesta a fortaleza de Cristo em nós. (Cf. 2 Cor 12, 10): “o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes;” (1Cor 1,27)
“Mas qual é a estrada? [disse Deus à Santa Catarina] Vou dizê-lo. Toda perfeição e virtude procede da caridade; a caridade alimenta-se da humildade; a humildade nasce do auto- conhecimento e da vitória sobre o egoísmo da sensualidade. Para se atingir o amor filial é necessário, pois perseverar na cela do autoconhecimento. Nesta cela o homem conhecerá o Meu perdão através do Sangue de Cristo, atrairá sobre si pelo amor, a Minha caridade, procurará destruir em si toda má vontade espiritual e temporal...”.
Testemunho disso nos deu o Papa Bento XVI, ao resignar o trono de Pedro: “Converter-se significa não fechar-se na busca do próprio sucesso, do próprio prestígio, da sua própria posição, mas fazer, verdadeiramente, que cada dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé em Deus e o amor se tornem as coisas mais importantes”. Em outras palavras enclausurar-se no próprio egoísmo seria fruto do orgulho que levaria de novo o ser humano para longe de Deus, para o pecado.
Abrir mão dos próprios orgulhos e deixar-se nas mãos de Deus é um ponto árduo para o ser humano que está envolvido pelo pecado, mas é exatamente as cinzas que receberemos e que nos lembrarão que somos pó que nos farão encontrar a vontade de Deus e, nela, o Amor que nos dá alegria.
Assim, tornam-se gestos sinceros de quem deseja, pela humildade, chegar ao Amor: a esmola (o desapego do dinheiro, do poder), a oração (desapego de si mesmo, de suas próprias forças) e o jejum (desapego dos próprios desejos e instintos).
O ser humano do paraíso está contente por que ao mesmo tempo em que cuida da terra, cuidando de si, passeia de mãos dadas com Deus. O ser humano do pecado está entristecido pelo egoísmo que traz em sim, mas o ser humano da Igreja, que superou o pecado pela humildade, que encontrou nas suas cinzas o motivo de sua salvação, é Feliz por que não só esta de mãos dadas com Deus, mas participa do Amor da Trindade e leva esse mesmo amor a toda a Terra!
Do pó viemos e ao pó retornaremos, mas é do pó da humildade que nós ressuscitaremos! É esse o renascer do ser humano pelo caminho de Cristo, o da humildade que nos ensina saber quem somos e o que Cristo é em nós.

Pe. Fabiano de Carvalho Silva
Pároco
Nossa Senhora da Conceição – Boa Esperança


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia do Papa


Sobre a renúncia do Papa

Decerto pegou-nos de surpresa! Aliás, quem poderia se quer pensar na renúncia de um Papa, ainda mais sendo Bento XVI de quem tínhamos aquela inquebrantável imagem de segurança que ao longo de seu ministério – desde o Concílio Vaticano II, passando pela Congregatio pro Doctrina Fidei até sua ascensão ao Sólio Pontifício – forjou-se em nossas mentes.
O Código de Direito Canônico pensou, já que segundo o cânon 332§ 2 “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém”.
Os motivos da renúncia ficaram indubitavelmente explícitos no anúncio feito por Sua Santidade, no último consistório: “Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro.”.
É bem verdade que em 2010, Bento XVI, ao visitar a tumba do papa Celestino V, que renunciou por motivos de saúde, deixou em sinal de homenagem o pálio de seu pastoreio e que no livro entrevista com Peter Seewald, Luz do Mundo, afirmou que uma doença grave poderia impedi-lo de realizar suas funções. Entretanto, quaisquer informações além do que fora exposto, será sempre mera especulação jornalística.
Por que a renúncia de Bento XVI não prejudica a infalibilidade papal? Ele mesmo nos respondeu na entrevista à Peter Seewald, no livro Luz da Vida: “O Conceito de infalibilidade foi-se desenvolvendo ao longo dos séculos. Nasceu perante a questão de se existiria, em algum lugar, um derradeiro órgão, um último grau que pudesse decidir...em determinadas circunstâncias e sob certas condições, o Papa pode tomar decisões, em ultima instância, vinculantes, graças às quais  tornam-se claro o que é a fé da Igreja e o que não é.” (Bento XVI, Luz do Mundo 2010. p.23).
Mas gostaria de ressaltar algumas coisas que nos fazem ter um verdadeiro sentimento de emulação pela atitude do Papa Bento XVI.
A primeira coisa que salta aos olhos é a humilde atitude daquele que ama a Igreja. Deixar o posto mais alto é entender que o servo dos servos de Deus precisa estar apto a servir e se sua idade já não comporta mais o peso do serviço, que nobre gesto de reconhecimento de suas incapacidades de adequadamente cumprir o ministério que lhe fora confiado.
Outra coisa que nos chama a atenção é saber que para Bento XVI “Ser Papa não significa colocar-se como um soberano repleto de glória mas, antes, dar testemunho daquele que foi crucificado, e estar disposto a exercitar o próprio ministério também dessa maneira, em união com Ele.” (Bento XVI, Luz do Mundo 2010. p.26).
E, por fim, seu desejo de devotamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro, através de uma vida dedicada à oração, nos dá a certeza de que é possível ocupar várias frentes na Igreja, desde que nos proponhamos a fazê-lo segundo a vontade de Deus.
Em fim, a renúncia do Papa Bento XVI nos ensina que a consciência de si e a humildade são elementos constitutivos daqueles que desejam ser Santos. Sem dúvidas um ato de fé, coragem e humildade!