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segunda-feira, 28 de março de 2011

Carta aberta sobre o Neo Pentecostalismo



Há alguns dias recebi um e-mail, encaminhado por meu irmão, no qual um amigo pedia alguns esclarecimentos sobre a RCC. Pensando um pouco sobre o assunto e tentando refazer o itinerário pelo qual o Neo Pentecostalismo Católico criou raízes no Brasil, decidi responder conforme se segue.
No entanto, pensando que a reflexão poderia ser de utilidade para o escopo de nosso Blog, decidi postar a resposta enviada ao meu irmão.  
Agradeço ao meu irmão Gustavo Lopes e ao amigo Fernando M. Almeida pela oportunidade de refletir sobre o tema dedicando a eles esse post. Deus abençoe!


Estimado irmão,

Tendo lido o e-mail que me encaminhaste, penso que posso responder-te com poucas palavras de modo a suscitar tanto em ti quanto em teu amigo, alguma reflexão que seja de proveito espiritual para nós todos.

Penso que o movimento da Renovação Carismática Católica seja um pouco mais profundo do que parece a primeira vista. Decerto, é um movimento dentro da Igreja e não a Igreja dentro do movimento – para ser mais claro, a Renovação Carismática Católica é uma parte do todo.

Significa dizer que para ser autenticamente da Renovação Carismática Católica é necessário, em primeiro lugar, ser Católico, isto é, assentir com vontade e razão a todos e a cada um dos dados revelados, mas, outrossim, é possível ser plenamente Católico sem pertencer à Renovação Carismática Católica.

Gosto de fazer uma divisão terminológica (por que o termo “Renovação Carismática Católica” não é unívoco): A Renovação Carismática Católica é um organismo que se institucionalizou dentro da Igreja, isto é, deu forma organizacional para um grupo de fiéis que se identificou com uma espiritualidade neo pentecostal. No entanto, existem outros grupos que vivenciam a mesma experiência neo pentecostal, mas que não estão ligados diretamente ao que se chamou RCC. A esta experiência chamo, particularmente, de “Espiritualidade de Pentecostes”.

Pode parecer boba a distinção, ou somente terminológica, mas na prática da Igreja acaba sendo um diferencial entre a instituição “RCC” e outros grupos que necessariamente não estão ligados à RCC, mas que comungam dessa espiritualidade.

Historicamente falando – pelo que pude aferir – antes do Concílio Vaticano II (1962 – 1965), houve um forte movimento em função de o laicato colaborar com a missão de “salvar as almas pela cristianização dos indivíduos, da família e da sociedade”. Esse movimento chamou-se “Ação Católica” e teve grandes expoentes no exterior (Emmanuel Mounier, Teilhard de Chardin e Jacques Maritain) e, no Brasil, contou com o grande Alceu Amoroso Lima.

Contudo, o Concílio Vaticano II suscitou duas vertentes diametralmente opostas no Brasil que teve como expoentes, de um lado, D. Helder Câmara, e, de outro, o Card. Dom Jaime de Barros Câmara (da Sé de São Sebastião do Rio de Janeiro) e o Card. Dom Vicente Scherer.

A Ação Católica no Brasil, eivada de ideais da teologia da libertação, contava com uma organização interna a Juventude Agrária Católica (JAC), formada por jovens do campo, a Juventude Estudantil Católica (JEC), formada por jovens estudantes do ensino médio (secundaristas), a Juventude Operária Católica (JOC), que atuava no meio operário, a Juventude Universitária Católica (JUC), constituída por estudantes de nível superior e a Juventude Independente Católica (JIC), que se destinava a outros jovens que não se encaixavam nas divisões anteriores.

Não precisa saber muito de história para saber onde a influência da teologia da libertação levou estes movimentos: Logo foi criada a Ação Popular (composta por antigos membros da JUC), desvinculada da Igreja Católica. No auge da ditadura militar, a Ação Popular (AP) adere à luta armada, passando a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil.

De outro lado, aqueles que não viam com muitos bons olhos o viés que se tomava na Ação Catolica, reagiram com movimento de resposta e aderiram ao Cursilho de Cristandade, movimento surgido na Espanha nas décadas de 1930-1940 por iniciativa da Juventude da Ação Católica Espanhola (JACE) da Diocese de Palma de Maiorca (Ilha de Maiorca, Espanha).

Ao que me parece, esse foi o ambiente perfeito para o florescimento da RCC no Brasil. De um lado a Ação Católica que deu largas ao movimento da teologia da libertação, de outro o movimento de Cursilho de Cristandade (chamados “Decolores”) que buscavam uma experiência mais espiritual e doutrinal da fé católica.
 
Em 1967, Steve Clark, da Universidade de Duquesne em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos, durante o Congresso Nacional de “Cursilhos de Cristandade”, mencionou o livro “A Cruz e o Punhal”, do pastor John Sherril, sobre o trabalho do pastor David Wilkerson com os drogados de Nova York, o que despertou alguns jovens – engajados na Igreja, mas insatisfeitos com sua experiência religiosa – para a necessidade de orar para que o Espírito Santo os levasse a uma experiência diferente.

No Brasil, a Renovação Carismática Católica teve origem na diocese de Campinas, SP, através dos padres Haroldo Joseph Rahm e Eduardo Dougherty. Como se pode ver, a experiência da RCC no Brasil chegou por um viés neo pentecostal protestante. Também não foi um fenômeno isolado e unico no mundo. Na Europa já se tinha notícias de fenômenos carismáticos que não foram registrados como o evento de Duquesne.

Monique Hébrard diz que a Renovação Carismática “explodiu quase ao mesmo tempo em todos os cantos da terra e em todas as igrejas cristãs, sem que se saiba muito bem como é que o fogo se ateou” (HÉBRARD, Monique. Os carismáticos. Porto: Editora Perpétuo Socorro, 1992, p. 9.). O Cardeal Suenens testemunha que, “sem nenhum contato entre si, parece que o Espírito Santo suscitou em vários lugares do mundo experiências que, se não são iguais, certamente são semelhantes”(Cf. SUENENS, Cardeal León Joseph. Movimento Carismático: um novo pentecostes. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1996, p. 84).

Uma característica da Renovação Carismática Católica na Europa é que ela é muito mais voltada para a Patrística e e muito mais teológica que a dos Estados Unidos. Também – pelo que tenho notícia – é uma Renovação Carismática mais centrada e mais, eu diria, discreta. Faz sentido! Se a Renovação Carismática Católica pretende ser um movimento que busque uma experiência como a de Pentecostes, não parece plausível que se beba nas fontes protestantes, uma vez que nossa fonte é a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja e o Magistério. Neste ponto os europeus estão na frente.

Alguns autores podem ser consultados: Daniel Ange, Card. Paul Poupard, o pregador da casa pontifícia, Raniero Cantalamessa, o próprio Card. Suenens.

Para uma questão mais prática, podemos agora especular o problema que isso causou para nossa Espiritualidade de Pentecostes.

O que chegou ao Brasil veio por meio do que foi chamado de Evangelização 2000, com alguns cursos do Mexicano José H. Prado Flores, traduzidos do espanhol para o português. Obviamente eles vieram com o viés protestante.  No Brasil não temos grande influencia da RCC Européia a não ser por meio do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior, que tem resgatado a patrística no Brasil (você pode dar uma olhadinha no site dele www.padrepauloricardo.org).

Bom, houve uma cisão entre os que bebiam da Espiritualidade de Pentecostes (refluxos protestantes – rs) e a Evangelização 2000 se transformou em Escola de Evangelização e a RCC se institucionalizou (sendo formada por secretarias).

Acho que isso esclarece um pouco da influência protestante no fenômeno neo pentecostal no Brasil.

Falta ainda entender outros temas ligados a Espiritualidade de Pentecostes, para não ficarmos com uma visão caolha do neo pentecostalismo católico. À bem da verdade, se pesquisássemos, veríamos que já nos Padres da Igreja, nos Santos e principalmente nos Místicos, já estão presentes alguns dos fenômenos (por exemplo, a glossolalia, ou o que se chama comumente de oração em línguas).

Espero ter dado alguma luz sobre o tema de sua conversa e suscitar uma reflexão sobre a RCC e a Espiritualidade de Pentecostes, contudo, não posso e nem devo deixar de comentar uma frase mencionada no e-mail que me reenviaste: "Não pense que não tem nada errado na Igreja não, pq tem!"

Caro irmão, a Igreja é uma instituição Divina e como tal, é perfeita. Destarte, não pode haver nada errado na Igreja. Se pensasses em termos filosóficos, dirias que é como a escuridão estar para a luz, isto é, o erro está para a Igreja mais como ausência e não como algo ontológico. Onde há erros, deixou de haver Igreja!

Amo-te como a mim mesmo.

Deus te abençoe!

Pe. Fabiano de Carvalho

terça-feira, 22 de março de 2011

O Ser Humano não está em extinção!


 

21 de março de 2011. Chega a revista “Época”, da qual sou assinante e procuro ler com freqüência para estar inteirado das notícias do país. Uma página de merchandising, um carro nas seguintes. Folheando, folheando... Página 13... Opa! Primeiro Plano: “Personagem da semana: ‘Pinpoo, a volta do cão prodígio’.”
Um vira-lata desaparecido que foi reencontrado depois de 15 dias desaparecido, após ter sido despachado num aeroporto por meio de uma empresa aérea. Página seguinte a integra da matéria, com um final feliz: “Às 22 horas da quarta-feira, dia 16, Nair Flores [a dona do vira-lata] recebeu uma ligação eufórica da mulher do sargento da Brigada Militar Paulo Ribas da Silva, de 53 anos. Ele e dois soldados do batalhão encontraram o cachorro nas cercanias do Salgado Filho [aeroporto em Porto Alegre]. ‘Quando soubemos da fuga, virou questão de honra capturar o cachorro, que andava nas redondezas’ conta Ribas, dono de dois cães. Por três dias, ele bolou estratagemas para capturar Pinpoo”.
Mais uma página e uma anta! A chamada da matéria, na coluna “Fala Brasil” noticiava que o IBAMA conseguira autuar um fazendeiro de Mato Grosso por caça ilegal de animais silvestres por meio de exame de DNA. O fazendeiro havia dito que a carne que secava ao sol era de porco, quando na verdade era de capivara. Dizia ainda que em 2008 os agentes apreenderam uma porção de carne moída cujas análises demonstraram ser carne de anta.
Lá pelas tantas, na página 41, um cachorro da raça mastiff tibetano, nomeado Hong Dong vendido por 2,5 milhões [o cão mais caro do mundo] dividia a edição com a propaganda da Petrobras, que trazia a foto de uma tartaruga marinha nadando, e anunciava que “todo ser vivo é igual. Todos precisam de água” e que a empresa iria investir, até 2012, R$ 500 milhões no Programa Petrobras Ambiental, que inclui a preservação de recursos hídricos.
Para os leitores, até aqui, nada de mais. Preocupação com animais, ecologia, recursos hídricos. Tudo na mais perfeita ordem se não nos deparássemos, fora das páginas da revista, com a depreciação do ser humano.  
Ao que parece, os animais, a natureza e a ecologia são preferidas à preservação do ser humano. Essa idéia, apesar de não ser uma novidade, tem sido passada muito fortemente (ao mesmo tempo em que veladamente) em vários ambientes. Essa corrente de pensamento tem nome: neo-naturalismo e equipara à natureza humana a natureza vegetal e animal.
Um expoente deste pensamento é Michael Tooley. O neo-naturalismo propõe a redução qualitativa e quantitativa do ser humano para garantir a continuidade da perspectiva ecológica. Assim, é preferível a morte de um recém-nascido que a tortura de um animal ou a queimada de florestas.
Para quem achou exagerada e absurda a proposta, saibam que isto não está longe de nós! Por exemplo, as câmaras de vereadores de Florianópolis e do Rio de Janeiro proibiram a pesquisa cientifica com alguns animais, mas, não raro, vemos muitíssimos políticos defenderem o aborto, as pesquisas com células tronco embrionárias e a morte de anencéfalos.
Na contramão daquelas nefandas opiniões, afirma o Papa Bento XVI, ao enviar sua mensagem por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2011:

“O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação. Por isso, a primeira ecologia a ser defendida é a “ecologia humana” (cf. Bento XVI, Encíclica Caritas in veritate, 51). Ou seja, sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher; sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais, nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio-ambiente.”

Com este simples parágrafo o Pontífice solapa não só as perspectiva de Tooley, mas também as idéias de Skinner, para quem a verdade é um objetivo alcançado através do mensurado e quantificado, isto é, um conhecimento válido e experimental, enquanto os conceitos como pessoa, natureza e dignidade humana, bens fundamentais e outros perdem sua cientificidade; as idéias de M. Farrell, D. Lyons e T. Scanlon que reconhecem o direito a vida e seus correlatos (direito a ser concebido na família e através do ato conjugal), mas insistem que esses direitos não estão necessariamente presentes em casos concretos e pontuais e podem ser deixados de lados para o crescimento social; as teses de Foucault que negam a titularidade dos direitos humanos, já que o ser humano é constituído por estruturas inconsciente e, desse modo, a vida da pessoa humana pertence ao grupo que detém o poder de modo que, quando o proletariado tomasse o poder, poderia coagi-la com violência sangrenta; os absurdos de H. Triston Engelhardt e R. Dowokkin (dois autores muito presente na área da bioética) que, embora aceitando a natureza humana, seu valor e o conceito de pessoa humana, afirmam a distinção entre ser humano e ser pessoa, abrindo caminhos de morte, por que só pessoas têm direito e em particular direito a vida, mas que, o ser humano só é pessoa quando é adulto capaz de arrazoados e responsável por seus atos de modo que os não nascidos, doentes, deficientes são seres humanos, mas não pessoas e por isso não têm direito a vida e podem ser mortos.
Decerto, o leitor pode não ter conhecido os autores que citamos neste artigo, no entanto, certamente já se deparou com essas idéias, de modo velado ou não e, pode até ter concordado com elas sem ver o que está por detrás de cada um dos arrazoados sem razões legítimas e sem saber que, no fundo, concordava como uma cultura de morte.
Vem em nosso auxílio o Magistério Papal de Bento XVI que nos ensina que:

“O primeiro passo para uma reta relação com o mundo que nos circunda é justamente o reconhecimento, da parte do homem, da sua condição de criatura: o homem não é Deus, mas a Sua imagem; por isso, ele deve procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus. «Quem sabe reconhecer no cosmos os reflexos do rosto invisível do Criador, é levado a ter maior amor pelas criaturas» (Bento XVI, Homilia na Solenidade da Santíssima Mãe de Deus, 1 de Janeiro de 2010).”

Não esperemos que o ser humano seja declarado “espécie em extinção” para defendermos os valores da cultura da vida, mas, ao contrário, nos empenhemos com atitudes de vida para um mundo que entenda, viva e colabore para que outros tenham vida plenamente.