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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As cinzas da humildade redentora



As cinzas da humildade redentora

Nesta noite, ao serem impostas as cinzas da penitência sobre nossas cabeças, nos recordaremos, às palavras do ministro, que somos pó e ao pó retornaremos. A expressão é retirada do livro de Gn 3,9 e evoca o ambiente do castigo depois do pecado “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar.” (Gn 3,19). As palavras das consequências do pecado de nossos primeiros pais ainda ressoam doloridas nos nossos corações após cada pecado que cometemos como se fossem um tenebroso tema musical que acompanha a cena de nossa história pessoal. Entretanto, do mesmo castigo nasce a redenção.
 A expressão usada em Gn para dizer pó da terra é ’Adamah (hm'd'a). Sua sonoridade nos faz lembrar imediatamente a palavra Adam (~d'a') e nos remete àquela proximidade que temos com a terra de que fomos feitos: “Então Iahweh Deus modelou o homem com o pó do solo, insuflou em suas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Aparece no texto de Gn o ciclo de vida e morte que toca a todo ser humano: do pó nasce e ao pó retorna. Entretanto, algo no ser humano é diferente, ele recebe um sopro de vida que o faz vivente.
O ser humano é um mistério, um sinal de Deus que carrega em si dois extremos, a fragilidade do pó da terra e as alturas do sopro celeste. De certo modo, está relacionado à terra e deve cuidar dela, como deve cuidar de si mesmo e, por extensão dos seus semelhantes e por outro lado almeja o espiritual, o celeste, e deve busca-lo como concretização de seus maiores desejos e de si mesmo, como único modo de sua própria realização.
Se o tenebroso tema do pecado rasga a alma e tira da vida a suave canção da felicidade, Deus não quis nos deixar condenados às consequências lancinantes da morte, mas deseja, a cada dia – estejamos onde estivermos – trazer-nos de volta a experiência de amor consigo. Por isso enviou ao mundo o seu maior dom de Amor, Jesus.
É no Verbo que se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1, 14) que encontramos o caminho de volta para Deus. Não o caminho de volta para o paraíso edênico, mas um caminho de volta para o Amor do Pai que se manifestou no seu Filho e nos toca por meio do Espírito, o caminho para a intimidade com Deus, para uma vida espiritual no Novo Adão (cf. 1Cor 15,45).
O caminho que Cristo nos deixou fica mais claro e evidente quando vivemos bem a Quaresma e a Semana Santa como verdadeiros peregrinos de volta para o Amor: “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor.” (Fl 2, 6-11).
Portanto, o caminho de Cristo é o da humildade, reconhecendo nossa condição de pó. Mas não um reconhecimento revoltado, rebelde como o daqueles que não suportam a si mesmos. Essa rebeldia é obra do velho pecado que nos fez egoístas e soberbos. Ao contrário, o caminho encontra-se em reconhecer que em nossa humilde posição está a condição para nossa salvação. Se Cristo não se apegou ao seu ser, por que nós nos apegaríamos ao nosso não ser?
Deus ensinou à Doutora da Igreja, Santa Catarina de Sena, que a humildade é o solo fértil em que as raízes de nossas vidas se lançarão com profundidade no autoconhecimento que nos levará a contemplar a maravilha do que Deus é em nós. É exatamente por aí que São Paulo nos guia ao dizer que quando somos fracos é que se manifesta a fortaleza de Cristo em nós. (Cf. 2 Cor 12, 10): “o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes;” (1Cor 1,27)
“Mas qual é a estrada? [disse Deus à Santa Catarina] Vou dizê-lo. Toda perfeição e virtude procede da caridade; a caridade alimenta-se da humildade; a humildade nasce do auto- conhecimento e da vitória sobre o egoísmo da sensualidade. Para se atingir o amor filial é necessário, pois perseverar na cela do autoconhecimento. Nesta cela o homem conhecerá o Meu perdão através do Sangue de Cristo, atrairá sobre si pelo amor, a Minha caridade, procurará destruir em si toda má vontade espiritual e temporal...”.
Testemunho disso nos deu o Papa Bento XVI, ao resignar o trono de Pedro: “Converter-se significa não fechar-se na busca do próprio sucesso, do próprio prestígio, da sua própria posição, mas fazer, verdadeiramente, que cada dia, nas pequenas coisas, a verdade, a fé em Deus e o amor se tornem as coisas mais importantes”. Em outras palavras enclausurar-se no próprio egoísmo seria fruto do orgulho que levaria de novo o ser humano para longe de Deus, para o pecado.
Abrir mão dos próprios orgulhos e deixar-se nas mãos de Deus é um ponto árduo para o ser humano que está envolvido pelo pecado, mas é exatamente as cinzas que receberemos e que nos lembrarão que somos pó que nos farão encontrar a vontade de Deus e, nela, o Amor que nos dá alegria.
Assim, tornam-se gestos sinceros de quem deseja, pela humildade, chegar ao Amor: a esmola (o desapego do dinheiro, do poder), a oração (desapego de si mesmo, de suas próprias forças) e o jejum (desapego dos próprios desejos e instintos).
O ser humano do paraíso está contente por que ao mesmo tempo em que cuida da terra, cuidando de si, passeia de mãos dadas com Deus. O ser humano do pecado está entristecido pelo egoísmo que traz em sim, mas o ser humano da Igreja, que superou o pecado pela humildade, que encontrou nas suas cinzas o motivo de sua salvação, é Feliz por que não só esta de mãos dadas com Deus, mas participa do Amor da Trindade e leva esse mesmo amor a toda a Terra!
Do pó viemos e ao pó retornaremos, mas é do pó da humildade que nós ressuscitaremos! É esse o renascer do ser humano pelo caminho de Cristo, o da humildade que nos ensina saber quem somos e o que Cristo é em nós.

Pe. Fabiano de Carvalho Silva
Pároco
Nossa Senhora da Conceição – Boa Esperança


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sobre a renúncia do Papa


Sobre a renúncia do Papa

Decerto pegou-nos de surpresa! Aliás, quem poderia se quer pensar na renúncia de um Papa, ainda mais sendo Bento XVI de quem tínhamos aquela inquebrantável imagem de segurança que ao longo de seu ministério – desde o Concílio Vaticano II, passando pela Congregatio pro Doctrina Fidei até sua ascensão ao Sólio Pontifício – forjou-se em nossas mentes.
O Código de Direito Canônico pensou, já que segundo o cânon 332§ 2 “Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie a seu múnus, para a validade se requer que a renúncia seja livremente feita e devidamente manifestada, mas não que seja aceita por alguém”.
Os motivos da renúncia ficaram indubitavelmente explícitos no anúncio feito por Sua Santidade, no último consistório: “Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro.”.
É bem verdade que em 2010, Bento XVI, ao visitar a tumba do papa Celestino V, que renunciou por motivos de saúde, deixou em sinal de homenagem o pálio de seu pastoreio e que no livro entrevista com Peter Seewald, Luz do Mundo, afirmou que uma doença grave poderia impedi-lo de realizar suas funções. Entretanto, quaisquer informações além do que fora exposto, será sempre mera especulação jornalística.
Por que a renúncia de Bento XVI não prejudica a infalibilidade papal? Ele mesmo nos respondeu na entrevista à Peter Seewald, no livro Luz da Vida: “O Conceito de infalibilidade foi-se desenvolvendo ao longo dos séculos. Nasceu perante a questão de se existiria, em algum lugar, um derradeiro órgão, um último grau que pudesse decidir...em determinadas circunstâncias e sob certas condições, o Papa pode tomar decisões, em ultima instância, vinculantes, graças às quais  tornam-se claro o que é a fé da Igreja e o que não é.” (Bento XVI, Luz do Mundo 2010. p.23).
Mas gostaria de ressaltar algumas coisas que nos fazem ter um verdadeiro sentimento de emulação pela atitude do Papa Bento XVI.
A primeira coisa que salta aos olhos é a humilde atitude daquele que ama a Igreja. Deixar o posto mais alto é entender que o servo dos servos de Deus precisa estar apto a servir e se sua idade já não comporta mais o peso do serviço, que nobre gesto de reconhecimento de suas incapacidades de adequadamente cumprir o ministério que lhe fora confiado.
Outra coisa que nos chama a atenção é saber que para Bento XVI “Ser Papa não significa colocar-se como um soberano repleto de glória mas, antes, dar testemunho daquele que foi crucificado, e estar disposto a exercitar o próprio ministério também dessa maneira, em união com Ele.” (Bento XVI, Luz do Mundo 2010. p.26).
E, por fim, seu desejo de devotamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro, através de uma vida dedicada à oração, nos dá a certeza de que é possível ocupar várias frentes na Igreja, desde que nos proponhamos a fazê-lo segundo a vontade de Deus.
Em fim, a renúncia do Papa Bento XVI nos ensina que a consciência de si e a humildade são elementos constitutivos daqueles que desejam ser Santos. Sem dúvidas um ato de fé, coragem e humildade!