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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para criticar é necessário saber ler


Para criticar é necessário saber ler
Para criticar é necessário saber ler! Digo isso por que agora pouco li uma crítica do Blog Fratres in Unum,  que foi intitulada “‘Elogio da Indecência’ pelo Bispo de Campos”. Tratava-se de um artigo escrito por D. Roberto Francisco Ferreria Paz, que tinha sido bispo auxiliar de Niterói e agora é Titular de Campos dos Goytacazes.
Segundo o blog, o Excelentíssimo Bispo havia feito apologia à indecência ao citar Gustave Coubert e sua obra, “A origem do mundo” e, por isso, classificou o artigo como “uma verdadeira e grosseira obscenidade que não poderia ser mais inoportuna na boca de um Sucessor dos Apóstolos” (grifo do autor).
Assustei-me e resolvi seguir o link que dá na integra o artigo do prelado e gostaria de fazer alguns comentários:
1). O autor da crítica assumido pelo blog Fratres in Unum confunde-se ao dizer que se consolidou o “liberalismo no outrora baluarte católico norte fluminense” por dois motivos: nem se pregou nenhuma doutrina liberal em Campos e nem se pode aludir a D. Dom Antônio de Castro Mayer como baluarte católico, como deixa a entender nas entre linhas, o autor;
2). A leitura do texto pelo seu crítico foi desatenta e equivocada, cheia de preconceitos e sem rigor científico. Podemos ler o trecho a seguir:
“A pintura de Gustave Curbet, que coloca a genitália feminina num primeiro plano, na pintura denominada ‘A origem do mundo’, nos convida a posicionarmos e dar razão de nossa atitude e doutrina sobre a arte e a estética sob o olhar da Palavra de Deus. Nem todo nu é pornográfico, porém (grifo nosso) depois do pecado original é necessário integrar com o pudor e a castidade o que o pecado esfacelou e dividiu. O pudor serve de anteparo e resguardo do mistério da pessoa, para que ela não seja considerada um pedaço de carne ou ainda um órgão da genitália. A arte contemporânea separou a beleza, da verdade e do bem, considerando realidade qualquer objeto retratado ou representado.”
A expressão “porém” que grifamos no texto é uma conjunção coordenativa adversativa, isto é, que indica oposição de ideias e poderia muito bem ser substituída por: mas, contudo, entretanto, todavia;
3). A menos que o texto seja contraditório, evocar a estética ligada à ética e, depois fazer apologia à pornografia seria um tanto quanto louco, eu diria, surreal. O autor da crítica, cego por sua vontade de denegrir o bispo de Campos, não atentou para a coerência interna do texto que diz exatamente o contrário da leitura torpe feita.
Em fim, faz justiça o autor do blog Fratres in Unum, se expressamente enviasse suas desculpas ao Exmo. Bispo de Campos – sob pena de ser desacreditado do hall das opiniões realmente credíveis – pelo equívoco que cometeu.
Padre Fabiano de Carvalho. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Escolha e escolhas num labirinto de opções


“Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada.”
(Lc 10,41)

Escolha e escolhas num labirinto de opções

Um site: milhões de opções a um clique; Uma TV: milhões de canais à sua escolha; uma vida: milhões de caminhos à sua frente. E depois? O que escolher?  No fio do novelo que puxamos se encontram milhares de opções de vida e, sem sombra de dúvidas, todos desejam a melhor parte e, empenham-se nisso. Mas nossas escolhas têm de fato nos levado à melhor parte? Na ânsia de ter nossos impulsos satisfeitos recebemos o prêmio de Midas e aquilo que, no início, parecia um bem inominável, logo se torna um peso insuportável.
Na mitologia grega, o Rei Midas havia recolhido Sileno que perambulava bêbado e depois de trata-lo com hospitalidade, Baco concedeu-lhe que escolhesse a recompensa que quisesse. Ávido e egoísta, Midas pediu a Baco o poder de transformar em ouro tudo o que suas mãos tocassem – o que lhe foi concedido. Satisfeito, Midas se maravilhava com o fato de que os galhos que tocava pelo caminho se tornassem ouro. Mas logo percebeu que sua escolha redundaria em desgraça. Pedindo que lhe preparassem um banquete, notou que não poderia comer nem beber o que transformara em ouro depois de ter sido tocado por aquilo que julgara ser um bem no início, mas que se transformara em uma maldição no final.
Dotados da capacidade de eleição, acabamos desperdiçando as possibilidades de escolha e, perdidos no meio do vórtice de opções, fazemos escolhas das quais nos arrependemos, mais cedo ou mais tarde. E se o fio que puxarmos da nossa vida nos conduz no caminho da avidez e do egoísmo, certamente o resultado final será sempre insuportável mesmo que tenha sido aprazível no início.
Para evitarmos o prêmio de Midas é necessário nos colocarmos diante das possibilidades e considerar o bem e o mal nas opções apresentadas. É um primeiro passo que raramente é dado por agirmos no impulso e não considerarmos os motivos.
Aliás, as palavras impulso e motivo vêm bem a calhar. Enquanto o impulso supõe uma força externa que, de repente, nos projeta para algo, uma necessidade imperiosa, muitas vezes irresistível, que pode levar à prática de atos descontrolados ou irrefletidos o motivo é interno, determina ou causa alguma coisa, é a finalidade com que se faz alguma coisa.
Um carro quando precisa de pessoas para dar impulso, está quebrado. Mas quando funciona como deve, o combustível produz a força que o move. Um carro bom funciona pelo motor, uma pessoa boa funciona por motivos e não impulsos. Só quando consideramos bem a escolha e o que nos move a ela, conseguimos atingir o bem que desejamos e evitar o mal que não queremos.
A escolha do mal é um corredor sem saída no labirinto das opções e isso, por si só, já é compreensível: o mal tira a liberdade, escraviza e o resultado é a infelicidade. O que no início parecia uma boa escolha, por causa de nossos impulsos (e o egoísmo é o primeiro deles) se torna enfadonho e insuportável.
Por isso um segundo passo é ter cuidado na escolha do bem, porque não basta escolher o bem, é necessário escolher entre os bens a melhor parte. Saber escolher o bem é a arte de viver feliz e no labirinto de opções, um fio deve conduzir as escolhas: O Bem que nos torna livres. Cada vez que escolhemos o Bem nos tornamos mais livres e quanto mais livres mais escolheremos o Bem, recolhendo a felicidade de cada ato.
Consiste, por tanto, a felicidade, na escolha do Bem maior. Não era um mal o cuidado das tarefas da casa e dos afazeres do tempo, mas Marta, diante do Cristo, escolhe um bem menor e por isso é censurada. Quando escolhemos o bem menor o resultado é sempre o mesmo: inquietação e preocupação. É necessário cuidado para não esbarrar nas paredes depois de ter evitado os becos do mal no labirinto de opções, pois a melhor parte nunca nos será tirada.
Entre as escolhas e a Escolha, a liberdade é o fio que nos guia para fora do labirinto do egoísmo do Ávido Midas porque diante do Eterno, o efêmero fica insignificante e a melhor parte é reconhecida pela razão e querida pela vontade nos levando à liberdade e em consequência, à Felicidade.

Pe. Fabiano de Carvalho Silva