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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Para criticar é necessário saber ler


Para criticar é necessário saber ler
Para criticar é necessário saber ler! Digo isso por que agora pouco li uma crítica do Blog Fratres in Unum,  que foi intitulada “‘Elogio da Indecência’ pelo Bispo de Campos”. Tratava-se de um artigo escrito por D. Roberto Francisco Ferreria Paz, que tinha sido bispo auxiliar de Niterói e agora é Titular de Campos dos Goytacazes.
Segundo o blog, o Excelentíssimo Bispo havia feito apologia à indecência ao citar Gustave Coubert e sua obra, “A origem do mundo” e, por isso, classificou o artigo como “uma verdadeira e grosseira obscenidade que não poderia ser mais inoportuna na boca de um Sucessor dos Apóstolos” (grifo do autor).
Assustei-me e resolvi seguir o link que dá na integra o artigo do prelado e gostaria de fazer alguns comentários:
1). O autor da crítica assumido pelo blog Fratres in Unum confunde-se ao dizer que se consolidou o “liberalismo no outrora baluarte católico norte fluminense” por dois motivos: nem se pregou nenhuma doutrina liberal em Campos e nem se pode aludir a D. Dom Antônio de Castro Mayer como baluarte católico, como deixa a entender nas entre linhas, o autor;
2). A leitura do texto pelo seu crítico foi desatenta e equivocada, cheia de preconceitos e sem rigor científico. Podemos ler o trecho a seguir:
“A pintura de Gustave Curbet, que coloca a genitália feminina num primeiro plano, na pintura denominada ‘A origem do mundo’, nos convida a posicionarmos e dar razão de nossa atitude e doutrina sobre a arte e a estética sob o olhar da Palavra de Deus. Nem todo nu é pornográfico, porém (grifo nosso) depois do pecado original é necessário integrar com o pudor e a castidade o que o pecado esfacelou e dividiu. O pudor serve de anteparo e resguardo do mistério da pessoa, para que ela não seja considerada um pedaço de carne ou ainda um órgão da genitália. A arte contemporânea separou a beleza, da verdade e do bem, considerando realidade qualquer objeto retratado ou representado.”
A expressão “porém” que grifamos no texto é uma conjunção coordenativa adversativa, isto é, que indica oposição de ideias e poderia muito bem ser substituída por: mas, contudo, entretanto, todavia;
3). A menos que o texto seja contraditório, evocar a estética ligada à ética e, depois fazer apologia à pornografia seria um tanto quanto louco, eu diria, surreal. O autor da crítica, cego por sua vontade de denegrir o bispo de Campos, não atentou para a coerência interna do texto que diz exatamente o contrário da leitura torpe feita.
Em fim, faz justiça o autor do blog Fratres in Unum, se expressamente enviasse suas desculpas ao Exmo. Bispo de Campos – sob pena de ser desacreditado do hall das opiniões realmente credíveis – pelo equívoco que cometeu.
Padre Fabiano de Carvalho. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Escolha e escolhas num labirinto de opções


“Respondeu-lhe o Senhor: “Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada.”
(Lc 10,41)

Escolha e escolhas num labirinto de opções

Um site: milhões de opções a um clique; Uma TV: milhões de canais à sua escolha; uma vida: milhões de caminhos à sua frente. E depois? O que escolher?  No fio do novelo que puxamos se encontram milhares de opções de vida e, sem sombra de dúvidas, todos desejam a melhor parte e, empenham-se nisso. Mas nossas escolhas têm de fato nos levado à melhor parte? Na ânsia de ter nossos impulsos satisfeitos recebemos o prêmio de Midas e aquilo que, no início, parecia um bem inominável, logo se torna um peso insuportável.
Na mitologia grega, o Rei Midas havia recolhido Sileno que perambulava bêbado e depois de trata-lo com hospitalidade, Baco concedeu-lhe que escolhesse a recompensa que quisesse. Ávido e egoísta, Midas pediu a Baco o poder de transformar em ouro tudo o que suas mãos tocassem – o que lhe foi concedido. Satisfeito, Midas se maravilhava com o fato de que os galhos que tocava pelo caminho se tornassem ouro. Mas logo percebeu que sua escolha redundaria em desgraça. Pedindo que lhe preparassem um banquete, notou que não poderia comer nem beber o que transformara em ouro depois de ter sido tocado por aquilo que julgara ser um bem no início, mas que se transformara em uma maldição no final.
Dotados da capacidade de eleição, acabamos desperdiçando as possibilidades de escolha e, perdidos no meio do vórtice de opções, fazemos escolhas das quais nos arrependemos, mais cedo ou mais tarde. E se o fio que puxarmos da nossa vida nos conduz no caminho da avidez e do egoísmo, certamente o resultado final será sempre insuportável mesmo que tenha sido aprazível no início.
Para evitarmos o prêmio de Midas é necessário nos colocarmos diante das possibilidades e considerar o bem e o mal nas opções apresentadas. É um primeiro passo que raramente é dado por agirmos no impulso e não considerarmos os motivos.
Aliás, as palavras impulso e motivo vêm bem a calhar. Enquanto o impulso supõe uma força externa que, de repente, nos projeta para algo, uma necessidade imperiosa, muitas vezes irresistível, que pode levar à prática de atos descontrolados ou irrefletidos o motivo é interno, determina ou causa alguma coisa, é a finalidade com que se faz alguma coisa.
Um carro quando precisa de pessoas para dar impulso, está quebrado. Mas quando funciona como deve, o combustível produz a força que o move. Um carro bom funciona pelo motor, uma pessoa boa funciona por motivos e não impulsos. Só quando consideramos bem a escolha e o que nos move a ela, conseguimos atingir o bem que desejamos e evitar o mal que não queremos.
A escolha do mal é um corredor sem saída no labirinto das opções e isso, por si só, já é compreensível: o mal tira a liberdade, escraviza e o resultado é a infelicidade. O que no início parecia uma boa escolha, por causa de nossos impulsos (e o egoísmo é o primeiro deles) se torna enfadonho e insuportável.
Por isso um segundo passo é ter cuidado na escolha do bem, porque não basta escolher o bem, é necessário escolher entre os bens a melhor parte. Saber escolher o bem é a arte de viver feliz e no labirinto de opções, um fio deve conduzir as escolhas: O Bem que nos torna livres. Cada vez que escolhemos o Bem nos tornamos mais livres e quanto mais livres mais escolheremos o Bem, recolhendo a felicidade de cada ato.
Consiste, por tanto, a felicidade, na escolha do Bem maior. Não era um mal o cuidado das tarefas da casa e dos afazeres do tempo, mas Marta, diante do Cristo, escolhe um bem menor e por isso é censurada. Quando escolhemos o bem menor o resultado é sempre o mesmo: inquietação e preocupação. É necessário cuidado para não esbarrar nas paredes depois de ter evitado os becos do mal no labirinto de opções, pois a melhor parte nunca nos será tirada.
Entre as escolhas e a Escolha, a liberdade é o fio que nos guia para fora do labirinto do egoísmo do Ávido Midas porque diante do Eterno, o efêmero fica insignificante e a melhor parte é reconhecida pela razão e querida pela vontade nos levando à liberdade e em consequência, à Felicidade.

Pe. Fabiano de Carvalho Silva

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sobre a medicina e seu sacerdócio


Sobre a medicina e seu sacerdócio

Gostaria de me dirigir neste momento à Mesa Diretora do Hospital Regional Darcy Vargas em assembleia, para uma palavra de comunhão e ânimo diante de tantas adversidades e empecilhos que vêm se tornando percalços e desânimo no ofício de cuidar da saúde dos rio-bonitenses.
De certo que em muito vem sido negligenciada a saúde no que tange principalmente aos recursos que subsidiam o funcionamento adequado do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV). Numa de minhas rotineiras visitas aos doentes, encontrei com um médico no corredor que, em seu dia de folga estava passando visitas para que seus pacientes não ficassem sem o devido cuidado.
Há aqui uma analogia entre nossas visitas: eu, sacerdote, procurava dar o socorro espiritual; ele, médico procurava dar o socorro físico. Trocamos algumas palavras que me fizeram refletir sobre o que estava acontecendo. Ele dizia que gostava do que fazia, que sua profissão, mais que um sonho de vida era uma realidade em função da vida de outros, mas que também precisava sustentar sua família, pagar suas contas, etc.
Está cônscio, portanto, de que seu dever está para além de seu bem estar, mas que sem seu bem estar é impossível cumprir bem seu dever. Em contrapartida à dilapidação da saúde pública está o esforço desses homens e mulheres que tem se doado, mas que não podem deixar de pensar nas condições justas para desempenhar sua função. E isso não significa somente um salário digno, mas também condições materiais e políticas para assistir a população.
Jogos de interesses, politicagens espúrias e negligência não podem ter espaço no cenário da saúde pública. De que adiantaria termos a UPA se o HRDV não está em condições de receber os pacientes mais graves que precisam de internação? Não soaria como mero engodo ter a melhor UPA do estado se por conta disso fosse desprezado o atendimento no HRDV?
A palavra sacerdote significa etimologicamente: “representante do sagrado” (do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante) e não é a vida um primeiro lampejo do que é sagrado? Por isso deve-se valorizar acima de políticas e de jogadas de marketing, o auxilio a vida.
Queridos concidadãos, peço que não se esqueçam de que a função do “sacerdócio da medicina” é tornar sagrado o exercício do auxilio a vida. Bem a calhar é a palavra sacrifício, que significa tornar sagrado (sacrum – sagrado; fare – fazer).  Isso significa que não podemos nos negar ao bem comum e tampouco nos descuidar da subsistência própria por ser a própria vida sagrada diante de Deus.
Nosso apoio às causas da saúde de Rio Bonito vai ao sentido de encorajar seus espíritos para que nada e nem ninguém abatam os seus ânimos de promoverem o melhor para nossos concidadãos. Mesmo que para isso devamos ser radicais no sacrifício. Não permitam que nosso hospital, que inegavelmente tanto bem faz a população, seja vilipendiado a pretextos inadmissíveis para a população e para sua ilibada ética.
Minhas orações e comunhão em apoio aos médicos, enfermeiros e funcionários do HRDV bem como em apoio à assembleia que ora se reúne.
Com minha bênção,
Pe. Fabiano de Carvalho
Pároco de Boa Esperança.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobre o debate de ideias na campanha política 2012

 
 

Ir ao centro da cidade é ver o "ar politiqueiro" que impregna as ruas. Chegou o tempo de política e vemos cartazes, adesivos em carros e outros reclames que procuram gerar uma cadeira para os candidatos ao executivo e legislativo municipal. Diga-se de passagem, que se propaganda ganhasse campanha teríamos um empate técnico em Rio Bonito!

De um lado, o processo democrático necessita dessa atmosfera para deixar vir à lume um dado importante da campanha que são as propostas para a próxima gestão dos poderes municipais, de outro, lamentavelmente, está ausente o debate sobre as propostas para o município. Parece cedo para falar nisso? Creio que não! Ao sabor do costume brasileiro, a propaganda vem antes das propostas colocando-as em segundo plano, mas não são mais importantes que os planos e projetos para a cidade.

O rio-bonitense precisa aprender a nobre arte da política – e já digo de início – que não se faz com simpatia pessoal nem se baseia na distribuição ou manutenção de cargos comissionados (o que gera um clima de insegurança e ameaça), e muito menos na compra de votos, adquiridos com favores medíocres que prejudicam não só o processo democrático, mas também o desenvolvimento municipal integral.

Ao contrário, uma política pura e benéfica se faz com debate de ideias, com propostas concretas e credibilidade comprovada. Não podem ficar de fora das campanhas as possíveis respostas para problemas sensíveis do município. Aquele que quiser assegurar um lugar na câmara deve saber bem seu papel e não confundir os eleitores. Da mesma forma que aquele que quiser segurar a caneta do executivo deverá ter em mente que urgem respostas para vários problemas.

Um tema relevante é a questão do trânsito e do transporte: a otimização e organização do espaço, a fiscalização às leis de trânsito, a definição real do papel da guarda municipal no que se refere ao tráfego são problemas esperam solução.

As questões da infraestrutura são importantes, mas não basta deslocar gradativamente os órgãos públicos da cidade para o Green Valley ou Praça Cruzeiro construindo novos prédios. O crescimento dos distritos também deve ser levado em conta pelo(a) novo(a) prefeito(a) que deverá se preocupar, especialmente, com o distrito de Boa Esperança e arredores, principalmente as comunidades do interior que, pela distância, ficam esquecidas e merecem o incentivo de novos loteamentos residenciais e melhor saneamento básico.

O parque industrial e as obras de acessibilidade são significativos, mas também devem estar em conformidade com a legislação federal vigente. A execução e manutenção destes pontos são imprescindíveis.

No que tange a saúde, o ponto nevrálgico é a ausência de profissionais. A falta das condições necessárias para que os médicos realizem seu trabalho, como mais recursos e melhores salários, inviabilizam um bom atendimento e prejudicam os cidadãos. Os recursos são parcos e as dificuldades patentes. De fato, temos um bom hospital e ainda contamos com a UPA. Entretanto, se levarmos em conta que o atendimento prestado vai muito além da população de Rio Bonito, devemos convir que é preciso muito mais médicos e atenção ao setor.

Na educação, o desafio de novo encontra suas fronteiras no interior onde as escolas precisam de reformas e os alunos de professores. É bem verdade que é necessária a conscientização do bom uso do material disposto, mas é também verdade que o material precisa ser bem disposto. No ambiente da cultura, convém lembrar que a cidade precisa de uma biblioteca pública aparelhada, de um teatro municipal e, sonhando alto, da volta do cinema que poderia ser incentivada.

Se o estado é laico, precisamos lembrar que prefeitura e câmara municipais não são igrejas. Não defendo um antagonismo entre igreja e estado, mas um companheirismo. Todavia, usar da máquina pública como instrumento de favorecimento religioso é vergonhoso e está ao arrepio da Constituição. A cooperação mútua entre as igrejas e a prefeitura deve ocorrer, porém de forma imparcial, afinal de contas, as igrejas também promovem cidadania, educação, cultura, arte e integração.

Esses são alguns dos pontos que deveriam ser discutidos nesta campanha eleitoral. É claro que existem inúmeros problemas – o da segurança pública, do crescimento do uso das drogas, tratamento de água e esgoto entre outros – que precisariam ganhar espaço na apresentação dos planos para a próxima gestão municipal, mas isso só vai acontecer se os candidatos se propuserem a discutir com seriedade os assuntos pertinentes e os munícipes cobrarem uma postura democrática de seus candidatos.

Vale lembrar, que cada vez que se vendem votos, esse processo fica completamente viciado e, de novo a política volta ao submundo dos interesses individuais levando não só a cidade ao prejuízo, mas àquele que vendeu seu voto e consequentemente renunciou a melhorias reais para o município. Votar com dignidade e consciência é estar atento ao bem comum!


 

Pe. Fabiano de Carvalho

Pároco de Boa Esperança

Fonte:

CARVALHO, F. Sobre o debate de ideias na campanha política 2012. Folha da Terra, Rio Bonito, p. 2, 11 de ago. de 2012.


 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sobre o voto do relator



O ministro Marco Aurélio apresentou um “arrazoado” em favor do aborto de anencéfalos partindo de vários pontos que gostaríamos de considerar nestes parágrafos. Quero lembrar que o fato de eu ser padre não invalida minha oposição ou a torna, por isso, religiosa. Quero discutir relevantemente a “lógica” do argumento e mostrar que é um absurdo entabular a situação naqueles termos.
Abre-se o texto com a epígrafe de um orador sacro que propõe a questão do tempo e das coisas que devem passar e ir passando sempre. De fato as coisas e o tempo escorrem pelas nossas mãos, não obstante não nos cabe escolher o tempo em que vivemos, mas o que fazemos com ele e com as coisas que nele estão. Vergonhoso seria deixar como testemunho deste nosso tempo um legado de morte e de dor para aqueles que inevitavelmente virão depois de nós, ora sofrendo as consequências de nossas escolhas hodiernas, ora envergonhando-se de homens que condenaram à morte, por negarem a dignidade de ser humano, à crianças indefesas pelo puro egoísmo.
Colocando o tema, o ministro apresenta, como dado corroborativo o fato de até o ano de 2005 os juízes e tribunais de justiça formalizarem cerca de três mil autorizações para interrupção gestacional por incompatibilidade do feto com a vida extrauterina e o fato de o Brasil ser o quarto em casos de anencefalia no mundo.
Os números de incidência são realmente grandes e impressionam à primeira vista, no entanto, são exatamente eles que nos dão, neste ponto, o direito de ponderar algumas coisas: Se hoje, com o advento do pré-natal e com a ciência de que o ácido fólico impede malformações do tubo neural do bebê, durante a gestação, não parece absurdo que um país com proporções continentais e com recurso nunca antes provido seja inapto para tratar o caso de modo preventivo. Redunda no fato de que o lapso estatal na prevenção da anencefalia deva ser corrigido com o aborto. Esse arrazoado é válido?
Continua o ministro: “Busca-se tão somente que os referidos enunciados sejam interpretados conforme à Constituição. Dessa maneira, mostra-se inteiramente despropositado veicular que  o Supremo examinará, neste caso, a descriminalização do aborto, especialmente porque, consoante se observará, existe distinção entre aborto e antecipação terapêutica do parto.” (ADPF 54/DF31 Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54 Distrito Federal, Ministro Marco Aurélio). De fato a matéria em pauta não é a descriminalização do aborto é a interpretação de algo que já está claro na Carta Magna da democracia brasileira, o que seria absurdo. Outrossim, a distinção entre aborto e “antecipação terapêutica do parto” não é mais que eufemismo, uma vez que o objeto desejado neste caso é a extirpação do feto.
Oferece a seguir um imbróglio para a questão tangendo a laicidade do estado, que absolutamente tem relação com o tema em questão. Ao fato de o estado ser laico não segue necessariamente que ele deve ser antirreligioso, o que se mostra no fato da negativa às razões dos contra o aborto de anencéfalos. Mas se o ministro quer empunhar o gládio da morte nestes termos, poderemos responder a ele que mesmo o estado sendo laico não pode negar a influência que a fé sempre teve na construção do espírito geral do povo brasileiro que nasceu sob os auspícios do cristianismo e é o país que mais expressa seus sentimentos religiosos.
Vale lembrar que não foi um ato somente do estado, mas uma escolha dos dois lados, a extinção do padroado e a doutrina do corpus separatum. O ministro expressou a diferença entre o laicismo e a laicidade, mas somente de modo formal, por que sua argumentação, ao revés do que expressa é de fundo intolerante ao dado religioso e à razão humanista impostada pela religião. Não vejo a relevância do debate para o tema central, e sinto até um cheiro discriminatório no ar.
Aproveitou de que já tinha criado o imbróglio para juntar ao caldo anencefálico o caso dos crucifixos retirados das dependências públicas. Penso que o ministro ignora a função dos arquétipos da justiça, bem como a extensão de seus significados, o que qualquer cursinho de filosofia em nível de graduação saberia precisar. Recomendo-lhe!
O problema do ministro, até agora, não é o abroto dos anencéfalos é a questão entre Estado e Igreja, creio que ele tenha confundido as pautas, se não está claro que trata-se de uma perseguição clara à religião e não ao fato de ser ou não certo abortar um anencéfalo.
Então o ministro dá sua cartada:

“Se, de um lado, a Constituição, ao consagrar a laicidade, impede que o Estado intervenha em assuntos religiosos, seja como árbitro, seja como censor, seja como defensor, de outro, a garantia do Estado laico obsta que dogmas da fé determinem o conteúdo de atos estatais. Vale dizer: concepções morais religiosas, quer unânimes, quer majoritárias, quer minoritárias, não podem guiar as decisões estatais, devendo ficar circunscritas à esfera privada. A crença religiosa e espiritual – ou a ausência dela, o ateísmo – serve precipuamente para ditar a conduta e a vida privada do indivíduo que a possui ou não a possui.” (Ibidem)

Mas aguardem um momento! Quem está falando de arbítrio religioso, de concepções morais religiosas? Nós estamos falando do ser humano, sua dignidade e vida! A argumentação está trocada! Fica claro que o aborto aqui é instrumento para afrontar o sentimento religioso do povo brasileiro. Mantenhamo-nos no debate, mesmo que, no fundo dele esteja uma atitude antirreligiosa, ao contrario do que afirmara no início.
Um anencéfalo não pode ser abortado por que é um ser humano, e sendo assim, está dotado de dignidade que não lhe pode ser alienada e isso nada tem haver com o fato de um anencéfalo ser cristão, mas no fato de ele simplesmente ser humano. Poderia argumentar contra isso, ministro?
Todo o arrazoado científico do ministro, baseado nos doutores especialistas esbarram num único argumento: há vida humana? Se sim, deve ser preservada. Se não onde estão as bases para afirma-lo? Se a base é dizer que não haverá vida extra uterina, o argumento é frágil pois não é recorrente ao estado dizer que é e quando é vida. Apoia-se, a vida humana, no fato se ser gerado humano, de uma mulher não pode nascer um bicho! Fácil e simples!
O amontoado de argumentações científicas não resolve um tema: o ser humano concebido anencéfalo é ser humano, mesmo que viva um só segundo.
Não se poderia, sob o pretexto de identificar onde há vida, usar o mesmo critério para uma morte cerebral simplesmente por se tratar de duas matérias diferentes. Numa a criança está viva e será forçadamente morta, na outra a pessoa está viva e naturalmente morrerá. O centro do debate não está na morte, por que se for assim, ad absurdum, todos morreremos. O problema está centrado em como e a melhor resposta para essa pergunta é: com dignidade.
Portanto resulta em inválida a argumentação do ministro Marco Aurélio sobre a anencefalia e o aborto. Pudemos ver que sua opinião é mais eivada de razões antirreligiosa que de razões de fato humanas. Defender a vida humana, mesmo que fugaz, é um dever do Estado e de todo cidadão.

Os poderes se confundiram!



Não, não estou falando do poder de fazer isso ou aquilo, falo da teoria dos três poderes – legislativo, executivo e judiciário. No caso da possibilidade do aborto por anencefalia, os ministros do STF estão fazendo o papel de deputados. As câmaras legislativas do país estão evitando o debate por que sabem que a população é avessa a qualquer cheiro podre de abortismo.
Para favorecer clínicas de aborto? Para implementar planos de controles demográficos? Para favorecer políticas de países hegemônicos? Não sei! Mas já há muito tempo estão querendo passar goela a baixo do povo um algo que não se quer engolir: matar criancinhas é contra o sentimento do homem.
O fato é que o congresso isenta-se do papel de legislador para outorga-lo inadequadamente ao STF. Não parece claro que diz o Ministro Lewandowski:

“Permito-me insistir nesse aspecto: caso o desejasse, o Congresso Nacional, intérprete último da vontade soberana do povo, considerando o instrumental científico que se acha há anos sob o domínio dos obstetras, poderia ter alterado a legislação criminal vigente para incluir o aborto de fetos anencéfalos, dentre as hipóteses de interrupção da gravidez isenta de punição. Mas até o presente momento, os parlamentares, legítimos representantes da soberania popular, houveram por bem manter intacta a lei penal no tocante ao aborto, em particular quanto às duas únicas hipóteses nas quais se admite a interferência externa no curso regular da gestação, sem que a mãe ou um terceiro sejam apenados.” (ADPF 54/DF Voto do Ministro Ricardo Lewandowski)

Se há câmaras legislativas no país, por qual motivo o STF deve se fazer juiz nesta questão? No arrazoado apresentado como defesa do anencéfalo apresentado pelo do ministro Ricardo Lewandowski, resulta, em linhas gerais a clareza da incongruência entre o papel do judiciário e a matéria tratada:

“De fato, como é sabido e ressabido, o Supremo Tribunal Federal, à semelhança do que ocorre com as demais Cortes Constitucionais, só pode exercer o papel de legislador negativo, cabendo-lhe a relevante – e por si só avassaladora - função de extirpar do ordenamento jurídico as normas incompatíveis com o Texto Magno. (...) Destarte, não é lícito ao mais alto órgão judicante do País, a pretexto de empreender interpretação conforme a Constituição, envergar as vestes de legislador positivo, criando normas legais, ex novo, mediante decisão pretoriana. Em outros termos, não é dado aos integrantes do Poder Judiciário, que carecem da unção legitimadora do voto popular, promover inovações no ordenamento normativo como se parlamentares eleitos fossem.” (Ibidem.)

Vê-se claramente que, no intuito de fugir a responsabilidade de aprovar a impopular lei de aborto, o congresso derroga sua responsabilidade àqueles que não são eleitos. Isto é, para não perder eleitores foi armado um joguete para aprovar à conta gotas o aborto sem coloca-los na conta de nenhum político deste nosso país guaranil.
A agenda comunista está em andamento? Seria a implosão da moral um objetivo com esse passo que se delineia no mapa da sociedade brasileira? A que ponto chegaremos? São perguntas nos fazemos a todos os momentos, mas que só a sanidade dos Excelentíssimos Ministros do STF nos abrirão caminhos de resposta (e podemos prever alguma coisa: ou voltaremos à barbárie de negar por via jurídica o estatuto e a dignidade deste ou daquele ser humana, ou mais uma vitória contra a anti-razão será realizada esperando que de novo os que desejam o mal do homem para seus fins escusos armem outra cilada para a mente do homem de hoje).
Não, o nosso povo não quer uma legislação abortista! Não, apesar da indiferença de alguns e da maldade de outros, nós somos a favor da preservação da dignidade do ser humano em todos os seus estados, por que o fato de nascer de ser humano já o faz ser humano com direitos e dignidade.
A razão deve se curvar à verdade e à caridade uma vez que nunca sozinha a razão humana nos levou à Felicidade!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma palavra: VIDA!


Uma palavra: VIDA!

“O ministro Marco Aurélio de Mello, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) da ação que pretende descriminalizar o aborto de fetos anencéfalos (sem cérebro), votou a favor da medida nesta quarta-feira (11) e afirmou que dogmas religiosos não podem guiar decisões estatais e que bebês com ausência parcial ou total de cérebro não têm vida.”
Vimos, ao revés de toda opinião pública do país, os ministros do STF declararem legítimo o aborto de anencéfalos. Um retrocesso no humanismo, segundo Reinaldo Azevedo. Mas isso não é tudo!
Não parece extremamente eivada de ideologismo o entendimento do STF? Sim, se levarmos em conta que a maior parte dos ministros do STF são oriundos das indicações do governo petista, que bem sabemos, militam sob o estandarte da morte e usam para isso o mote já velho, batido e discutido que em letras garrafais se apresenta: “o estado é laico”!
Um erro hediondo, já que o Estado, no entendimento do STF está produzindo um dogma: “Quando começa a vida”. Caberia ao estado o papel que quer desempenhar? Todas as vezes que o judiciário perde a noção de seu papel e decide “fazer as leis” perde também sua isonomia e seu objetivo.
O argumento dos religiosos não é religioso! É diminuir o argumento da dignidade humana reduzir o debate ao campo religioso quando na verdade trata-se de uma defesa expressa e clara da vida humana em qualquer de seus estados. No que toca o ser humano, o mais digno é que ele nasça, viva e morra naturalmente. O papel do Estado, em qualquer um de seus poderes, não é outro senão defender essa mesma vida. Isso reivindicamos e isso defendemos.
O entendimento do STF não corresponde à verdade e, exatamente por isso é um dogma contra o homem, já que nega a um feto (quer a um anencéfalo ou a qualquer outro) o direito a exercer o dom mais precioso e gratuito, isto é, a vida.
É uma falácia dizer que “Hoje é consensual no Brasil e no mundo que a morte se diagnostica pela morte cerebral. Quem não tem cérebro não tem vida”, como disse Marco Aurélio de Mello. Uma coisa é o cérebro que parou de funcionar deixando o corpo sem vida, outra é um corpo que, tendo uma vida, mesmo que vegetativa, tenha seu direito de existir negado. Não se pode colocar no mesmo patamar duas coisas, visto que uma coisa é a morte natural, outra é a interrupção de uma vida, mesmo que vegetativa. O erro lógico está na questão do princípio e do fim, não se pode julgar com os mesmos critérios o começo e o fim.
O argumento sobre o qual se apoiam alguns ministros para rechaçar o argumento ontológico dos religiosos se configura como discriminatório uma vez que não julga a matéria dos argumento, mas os que argumentam, como se a razão dos religiosos não fossem, pelo fato de partirem de religiosos, legítima.
Aqui o que está em questão é a dignidade da pessoa que, ao ser gerada, já tem seus direitos independente de suas condições físicas. Um ser humano é um ser humano a medida que é gerado assim. É simples de um gato não sai um ser humano, assim como de um ser humano não sai um não humano. Se é humano, tem direito à vida. Negá-la é retornar à barbárie.
Não se trata de um direito, o fato de decidir quem vive e quem morre!  Se há o mínimo de função vegetativa, já configura-se como vida humana, então por qual motivo negar esse direito. Veja que não se trata de um privilégio, mas de um DIREITO!
A pergunta a ser feita é fácil: aquele anencéfalo é um ser humano? Se dizer que não, o absurdo tomou conta da razão, mas se disser que sim, então por que negar a ele o direito a nascer?
Uns poderiam ainda argumentar o ponto de vista da mãe que não quer ou não tem “condições” de levar até o fim aquela gestação. Mas voltamos ao ponto inicial: é direito facultado a alguém negar um direito? A resposta é óbvia: NÃO!
Em fim, é de fato um retorno ao embotamento da razão chegar ao juízo que os ministros, viciados por ideologismos, chegaram. Paramos de novo diante do entrave da razão desligada da verdade que negou a milhares de judeus o direito à vida. A razão que deveria nos levar às luzes, nos colocou diante do mal no holocausto e, hoje, nos coloca diante do aborto.
O aborto é claramente a saída de volta para a negação da dignidade do ser humano: uma negação à VIDA!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Carta aberta em favor do Padre Paulo Ricardo


Já há dois dias que vejo as manifestações a favor do Revmo. Pe. Paulo Ricardo do Clero diocesano de Cuiabá, que tem estado em mídias como a TVCN, a internet – no site www.padrepauloricardo.org e outras. Sinto-me na obrigação de dizer algumas palavras em seu favor. Não que ele necessite de fato, por que a “carta aberta” que o detrata não tem conteúdo suficiente para se quer arranhar a boníssima imagem deste padre (digo padre antes de dizer teólogo, canonista, mestre espiritual dentre outros adjetivos que sua função permite).
 Por que um padre novo – tenho um ano de padre – do clero da Arquidiocese de Niterói/RJ, que é pároco numa pequena paróquia de interior (sou o feliz pároco de Nossa Senhora da Conceição em Boa Esperança, Rio Bonito/RJ) deveria levantar-se agora, depois que tantas eminentes vozes (tais como a do prof. Olavo de Carvalho) já se pronunciaram?
Tinha saído do seminário em 2001 e em 2005 um amigo me trouxe uns Cds com áudio de um retiro para seminaristas da renovação carismática (RENASEM). Naquela época vivia um momento difícil em minha vida cristã. Penso que quando saí do seminário tentei “matar” o seminarista que havia em mim me afastando de tudo o que pudesse lembrar aquela época. Modifiquei meu modo de vestir, meu comportamento, passei a sair mais, beber mais, fumar mais. Decerto, tinha amigos que não permitiram que eu me afastasse da Igreja e agradeço-lhes profundamente por isso, mas de Deus eu já havia me afastado há muito tempo.
Bem, não custava nada ouvir aquelas palestras que, segundo aquele amigo, eram muito boas. Indo para a faculdade, dentro de uma van, lembro-me como se fosse hoje, ouvi a primeira palestra e, ao fim, encontrava-me às lágrimas, ali mesmo, dentro daquela condução. Algo estava mudando dentro de mim.
Ouvi compulsivamente aquelas palestras, meditei em cada palavra que me tocava profundamente o coração... Deus estava falando comigo através daquele homem. Comecei a ver que minha saída do seminário não ocorreu por que eu não tinha vocação, mas o que me faltava era conversão. Queria um seminário, um sacerdócio e uma igreja ao meu prazer, mas não percebia que meus olhos não viam bem o que Deus queria. Naquelas palavras encontrei de novo um chamado para a vocação.
Ainda não estava pronto para voltar ao seminário, mas já sabia o que deveria fazer. Ao sabor daquelas palestras vi de novo brilhar a doçura do sacerdócio de Cristo, entendi que a cruz não era um obstáculo, mas uma condição e que não se poderia viver uma igreja ao sabor deste tempo, mas uma Igreja que fosse local do Encontro com o Cristo que nos leva ao Pai e que minha função nesta vida era ser como que a voz de Cristo neste mundo, outro Cristo.
Sim, Padre Paulo Ricardo foi uma das pessoas decisivas para que eu “criasse vergonha na cara” – como ele mesmo me disse uma vez enquanto conversávamos num retiro pregado no Seminário de Niterói – e voltasse para Deus.
O leitor já pode perceber que minha defesa não quer versar no universo teológico para desdizer o que os detratores do Revmo. Pe. Paulo afirmaram sobre ele. Não que não pudesse fazer: aquelas acusações são tão absurdas que não gastaríamos muito de nossos argumentos para derrubá-las uma a uma. Mas não vou me dar ao desgosto de perder tempo com isso.
Meu argumento de força é de ordem espiritual. O bem que aquele padre – sendo o padre que é – me fez, não terá conceito ou retribuição neste mundo: Devolveu-me a alegria de ser Cristão, ajudou-me a buscar a verdade acima de meus próprios desejos (muitas vezes sombrios e deturpados) e, acima de tudo, fez de novo o sacerdócio brilhar em minha vida como um caminho de amor para o Pai.
Depois de ter ouvido aquelas palestras, comecei a rezar de novo a liturgia das horas (que já tinham ido para o armário havia muito tempo) e comecei a frequentar de novo as missas diárias (não mais por obrigação de um horário, mas por meu próprio querer).
Na sexta-feira, 3 de junho de 2005 15:18 (ainda guardo o e-mail aqui comigo) resolvi escrever ao seminário de Cuiabá na esperança de que o Pe. Paulo me respondesse. Escrevi minha história, o que tinha acontecido e como me vi diante de Deus depois de tê-lo ouvido através daquelas gravações e pedi que me enviasse uma cópia de um arquivo que havia citado numa palestra.
Fiquei feliz quando no sábado, 4 junho de 2005 07:44:57, vi a resposta em minha caixa de e-mails. Quero partilha-lo agora já que seu conteúdo revelou um padre atento e preocupado com o bem do próximo, ao arrepio do que fora dito naquela carta que o detratara;

Caro Fabiano,
Recebi seu e-mail. Agradeço a confiança e o carinho. Envio-lhe imediatamente o arquivo pedido. Peço sua paciência porque no momento só posso responder meio às pressas (estamos preparando duas ordenações).
Você fala de aproximar-se de Deus. Mas como ficou a vocação? Ainda se sente chamado. Como está seu relacionamento com o novo arcebispo? Não é possível uma aproximação?
Tenha certeza das minhas orações.
Um abraço
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior


Senti-me realmente amparado pela oração sacerdotal do Pe. Paulo. Um homem equilibrado e sensato, ao contrário do que agora o acusam.
Na segunda-feira, 6 de junho de 2005 17:25 respondi o e-mail continuando o diálogo com o Padre respondendo àquelas perguntas que me fizera. Senti-me, pela primeira vez, realmente empolgado com a ideia de retornar ao meu caminho vocacional.
Na segunda-feira, 6 Jun 2005 22:32:58 recebia o e-mail que me daria a pedra final para a minha decisão, o fim de um percurso de volta (de conversão) a Deus. Muitas vozes, é bem verdade, haviam me orientado nesse itinerário, mas essa foi decisiva. Igualmente partilho o e-mail que o Padre Paulo me enviou:

Querido Fabiano,
”Já não vos chamo servos [...] eu vos chamo amigos” (Jo 15,15).
A quem Jesus disse isto?
Lá estavam, diante dele, Judas, Pedro e os outros fujões e traidores.
Jesus não fez deles amigos (apóstolos, padres, etc.) porque eram fiéis. Mas foi, ao contrário, a amizade de Jesus que foi fazendo deles amigos fiéis.
Não seja duro demais com você.
Não espere demais, não espere a perfeição.
A vida de sacerdote será sua santificação.
Não espere ser santo para ser padre. O sacerdócio fará de você um santo.
Os documentos da Igreja são claros em atesta-lo. É o próprio ministério do sacerdote quem o santifica. É a amizade com Jesus (o contato diário com a Palavra que precisa ser pregadas e com os sacramentos que precisam ser ministrados) quem santifica o padre.
Repito: Não espere ser santo para ser padre. O sacerdócio fará de você um santo.
Por enquanto, continuo orando por você.
Um abraço
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Minha defesa em favor do Padre Paulo Ricardo, se é que ele precisa de uma, vai mais ao viés de um testemunho sobre o contrário das leviandades aventadas sobre sua pessoa naquela carta infame que agora circula na rede e que foi entregue a autoridades eclesiásticas.  Creio que minha obrigação, longe da obrigação de defender alguém, está mais para a obrigação da gratidão.
Sou um padre feliz, vivo meu ministério entre paroquianos que são filhos, pais, amigos e irmãos. Muitas vezes faço em suas vidas o papel de amigo, de pai de irmão... choro com suas dores e me alegro com suas alegrias. E, mesmo contando em consciência com tantos pecados, sinto-me mais próximo de Deus pela alegria de um ministério que me fez compreender que é possível um caminho de santidade a partir do amor sacerdotal que se imola.
Espero, com essa carta, mostrar a utilidade e importância do ministério de Padre Paulo Ricardo para a Igreja Católica ao mesmo tempo em que agradeço sua presença em minha vida trazendo-o comigo – no meu coração – todos os dias eucarísticos de meu ministério por que pelas palavras dele “Deus me Visitou”[1]
Padre Fabiano de Carvalho Silva


[1] Essa expressão ele usou na dedicatória que me fez num livro de sua autoria. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Verdades e Verdade



Alguns minutos na frente da TV, algumas folheadas nos jornais e entre uma música e outra no rádio, percebemos que estamos evoluindo em termos de marketing no mass mídia. Cada vez mais elaboradas, as propagandas convencem mais e mais consumidores, “convertendo-os” aos seus produtos, convencendo-os de suas verdades e encarcerando-os a idéias como: “obedeça a sua sede”, “você não pode viver sem ele” ou “fazemos tudo por você” entre outros chavões que se cristalizam em nossas mentes.
Contudo, a evolução do marketing significa, quase sempre, a involução do homem e seu senso de verdade. Muito embora haja aspectos muito positivos, existem também os negativos. Não queremos condenar o marketing, mas desejamos colocar um contraponto e traçar um panorama que evite a deturpação da verdade e favoreça uma cultura evangélica autêntica onde os reais valores de vida possam ser experimentados em sua profundidade. Uma cultura como a nossa precisa receber um grande choque para restabelecer no homem uma humanidade que caminhe para seu Destino.
Estas propagandas, que ocultam sob corpos bonitos e imagens bem produzidas nocivas idéias de “verdade”, vêm perpassando nossa geração e convencendo conscientes e inconscientes de uma perigosa realidade que vem degradando nossa humanidade. Se há tempos atrás a verdade era pautada na adequação do intelecto à coisa, e se dizer a verdade significava fazer encontrarem-se o ser e o pensamento numa perfeita harmonia no plano da realidade objetiva, hoje temos uma sutil mudança.
O que ocorre é que a verdade da coisa foi deslocada da realidade objetiva para o plano subjetivo. A verdade vem sendo arrastada do campo da objetividade para o obscuro subjetivismo e lá acorrentada, uma vez que as perspectivas sobre a vida vêm mudando de acordo com os novos focos de interesse, que voltam seus olhos invertidos para o ter em detrimento do ser, e conseqüentemente atraem a cobiça pelo lucro. Desta ótica a verdade passa a ser enclaustrada no que convém a cada um segundo a sua necessidade momentânea e particular. A verdade figura então como adequação do pensamento e da coisa ao interesse individual naquele restrito momento.
Essas idéias não nos chegam sem gerar uma conseqüência preocupante: a tendência individualista que rompe com a índole comunitária presente no próprio homem desde os primórdios, onde se associava e estabelecia o sentimento de solidariedade que deveria evoluir para um sentido de presença e acolhida do outro, mas que foi deturpado para uma tolerância do outro e que logo redundaria, com o auxilio da economia de mercado, no sentido de competição e superação do outro rompendo os laços de fraternidade na espécie humana, fazendo da vida uma competição insana e autodestrutiva, uma vez que destruir o outro significa destruir-se a si próprio.
O marketing segue o princípio da venda do produto, isto é, o modo de apresentação do produto deve convencer de que este é, não só o melhor, mas o necessário. Expressões como “agregar valores”, “valor de mercado”, “tática de convencimento” e “público alvo” já nos dão pistas de para onde caminha e o que está por traz de cada “inocente” reclame publicitário diariamente veiculado nas programações de entretenimento eivadas de sentido comercial.
Instalou-se uma cultura de compra e venda que faz a vida ser reduzida a um grande mercado que deseja o lucro. Assim, ficam enfraquecidos conceitos e experiências de gratuidade, de amizade e de solidariedade. O “uso” das coisas começa a migrar para o uso do outro. A visão do outro como alguém que nos proporciona algum tipo de “lucro” subverte a pureza das intenções e relações.
Como conseqüência, o ser humano desfragmenta-se, porque perde o senso de comunidade e comunhão, por tanto, limita seu existir, perde sua perspectiva de futuro ensimesmando-se ao hoje fugaz que lhe escapa por entre os dedos e não traz a satisfação desejada. Seu desejo de eternidade é frustrado e sua busca acaba redundando numa solidão em meio à multidão.
Diante desse panorama, surge uma capital pergunta inquietante: Como anunciar alguém que ensina a doar, a perder, a ser o ultimo, a viver segundo o espírito e que priorizam um depois?
Essa inquietante realidade tem sido causa de preocupações teológicas e pastorais. Muitas respostas vêm sendo propostas: uma libertação social do homem que reivindica seus direitos sociais para uma vida menos indigna; um virar-se única e exclusivamente para as realidades pseudo-sobrenaturais que pretendem o céu já aqui ou uma simbiose de religiões que dão, a principio, uma sensação de tranqüilidade espiritual, mas que, tão logo tal tranqüilidade desapareça, muda-se de religião em busca de “encontrar-se”.
Parece que estas respostas propostas ao longo do tempo são insatisfatórias, quer por não preencherem a ânsia de eternidade presente no homem, quer por serem mutiladas e descentralizadas. Todas elas se tocam num ponto: pretendem que já neste tempo haja uma societas perfectas, contudo o Reino de Deus não é deste mundo. Deste modo, apresentar planos que vigorem somente no plano cronológico não constitui resposta valida, uma vez que o próprio núcleo essencial do cristianismo prega uma comunhão que alcança o agora, mas que está para o além.

“Num sentido, nós vamos viajando, sempre viajando como sem saber aonde vamos. Noutro sentido já chegamos. Não podemos nesta vida chegar à perfeita posse de Deus: É por isso que estamos viajando e nas trevas. Já possuímos, porém, Deus pela graça. Nesse sentido então foi que chegamos e ora residimos na Luz...”
(Thomas Merton)

Perceber que o homem está “em via” é o primeiro passo para superar o problema, isso significa que ele está e não está completo; a sua luta cotidiana ocorre num espaço e num tempo: sua vida. Mas enquanto caminha, sabe que já possui em si qualquer coisa de mistério, qualquer coisa que o faz sentir desde já a realidade de uma promessa, e por isso se sabe completo, sente a perfeição em si, pois reconhece que existe nele uma dignidade ímpar.
Por outro lado, podemos perceber que estamos todos nos construindo e que o instrumento principal para a construção do homem é sua liberdade de agir desta ou daquela forma. O homem em via descobre que enquanto está nesta condição não há nada, absolutamente nada que o complete ou que o satisfaça. É incompleto enquanto é perfectível. Há com isso uma abertura para o transcendente e uma possibilidade de sair da crise da desfragmentação pela possibilidade da re-construção e superação de si mesmo.
Recolocar o homem como peregrino restaura o senso de Esperança, por que se caminha, caminha rumo a um destino. Assim podemos conceber a realidade da salvação, isto é, a participação na vida do próprio Deus. O homem, que por si só jamais poderia participar da eternidade Divina recebe, com a promessa e concretização da Aliança em Cristo, a Esperança de receber o inaudito. Assim eram os primeiros cristãos: tinham diante dos olhos a perda e o que esperavam era o INVISÍVEL. Disso nós devemos alimentar nossa fé: da esperança de receber aquilo que não se vê. Nisso vivemos o mistério!
Porém, para chegar a esse mistério, é necessário um caminho de vida: A VERDADE. Não uma verdade que muda ao sabor da moda ou algo que convenha a determinado momento, mas uma verdade essencial. Esse é um caminho de mística: crer que o invisível irá nos conduzir ao Eterno, crer que em meio às coisas que passam podemos tocar o que não passa.
O homem é criado para o alto e por isso nos revolvemos em busca do Eterno na verticalidade da verdade que se encontra e se toca no vértice da vida com a horizontalidade da humanidade. Essa verdade nos toca de forma arrebatadora quando nos permitimos ser atraídos por ela e ela mesma muda nossas vidas, não mais de acordo com uma mentalidade mercado, mas segundo a profundidade da essência do mistério da Vida.
Em fim, para superar a verdade de mercado, proporcionada pela mentalidade de marketing do mass mídia, que traz em si muitos danos morais ao homem, é necessário descobrir que neste peregrinar que chamamos de vida, estamos em busca de nosso fim último, o desejo de eternidade, e que para chegar a bom termo é necessário viver em busca daquilo que não se vê. Descobrir que nos agarramos ao que há de Bom e que tudo governa, como uma mão invisível que conduz a história rumo a um triunfo final onde a Verdade será Vivida plenamente na Eternidade. Nós, cristãos, caminhamos neste mundo como se víssemos o invisível.