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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Sobre a medicina e seu sacerdócio


Sobre a medicina e seu sacerdócio

Gostaria de me dirigir neste momento à Mesa Diretora do Hospital Regional Darcy Vargas em assembleia, para uma palavra de comunhão e ânimo diante de tantas adversidades e empecilhos que vêm se tornando percalços e desânimo no ofício de cuidar da saúde dos rio-bonitenses.
De certo que em muito vem sido negligenciada a saúde no que tange principalmente aos recursos que subsidiam o funcionamento adequado do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV). Numa de minhas rotineiras visitas aos doentes, encontrei com um médico no corredor que, em seu dia de folga estava passando visitas para que seus pacientes não ficassem sem o devido cuidado.
Há aqui uma analogia entre nossas visitas: eu, sacerdote, procurava dar o socorro espiritual; ele, médico procurava dar o socorro físico. Trocamos algumas palavras que me fizeram refletir sobre o que estava acontecendo. Ele dizia que gostava do que fazia, que sua profissão, mais que um sonho de vida era uma realidade em função da vida de outros, mas que também precisava sustentar sua família, pagar suas contas, etc.
Está cônscio, portanto, de que seu dever está para além de seu bem estar, mas que sem seu bem estar é impossível cumprir bem seu dever. Em contrapartida à dilapidação da saúde pública está o esforço desses homens e mulheres que tem se doado, mas que não podem deixar de pensar nas condições justas para desempenhar sua função. E isso não significa somente um salário digno, mas também condições materiais e políticas para assistir a população.
Jogos de interesses, politicagens espúrias e negligência não podem ter espaço no cenário da saúde pública. De que adiantaria termos a UPA se o HRDV não está em condições de receber os pacientes mais graves que precisam de internação? Não soaria como mero engodo ter a melhor UPA do estado se por conta disso fosse desprezado o atendimento no HRDV?
A palavra sacerdote significa etimologicamente: “representante do sagrado” (do latim Sacerdos – sagrado; e otis – representante) e não é a vida um primeiro lampejo do que é sagrado? Por isso deve-se valorizar acima de políticas e de jogadas de marketing, o auxilio a vida.
Queridos concidadãos, peço que não se esqueçam de que a função do “sacerdócio da medicina” é tornar sagrado o exercício do auxilio a vida. Bem a calhar é a palavra sacrifício, que significa tornar sagrado (sacrum – sagrado; fare – fazer).  Isso significa que não podemos nos negar ao bem comum e tampouco nos descuidar da subsistência própria por ser a própria vida sagrada diante de Deus.
Nosso apoio às causas da saúde de Rio Bonito vai ao sentido de encorajar seus espíritos para que nada e nem ninguém abatam os seus ânimos de promoverem o melhor para nossos concidadãos. Mesmo que para isso devamos ser radicais no sacrifício. Não permitam que nosso hospital, que inegavelmente tanto bem faz a população, seja vilipendiado a pretextos inadmissíveis para a população e para sua ilibada ética.
Minhas orações e comunhão em apoio aos médicos, enfermeiros e funcionários do HRDV bem como em apoio à assembleia que ora se reúne.
Com minha bênção,
Pe. Fabiano de Carvalho
Pároco de Boa Esperança.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobre o debate de ideias na campanha política 2012

 
 

Ir ao centro da cidade é ver o "ar politiqueiro" que impregna as ruas. Chegou o tempo de política e vemos cartazes, adesivos em carros e outros reclames que procuram gerar uma cadeira para os candidatos ao executivo e legislativo municipal. Diga-se de passagem, que se propaganda ganhasse campanha teríamos um empate técnico em Rio Bonito!

De um lado, o processo democrático necessita dessa atmosfera para deixar vir à lume um dado importante da campanha que são as propostas para a próxima gestão dos poderes municipais, de outro, lamentavelmente, está ausente o debate sobre as propostas para o município. Parece cedo para falar nisso? Creio que não! Ao sabor do costume brasileiro, a propaganda vem antes das propostas colocando-as em segundo plano, mas não são mais importantes que os planos e projetos para a cidade.

O rio-bonitense precisa aprender a nobre arte da política – e já digo de início – que não se faz com simpatia pessoal nem se baseia na distribuição ou manutenção de cargos comissionados (o que gera um clima de insegurança e ameaça), e muito menos na compra de votos, adquiridos com favores medíocres que prejudicam não só o processo democrático, mas também o desenvolvimento municipal integral.

Ao contrário, uma política pura e benéfica se faz com debate de ideias, com propostas concretas e credibilidade comprovada. Não podem ficar de fora das campanhas as possíveis respostas para problemas sensíveis do município. Aquele que quiser assegurar um lugar na câmara deve saber bem seu papel e não confundir os eleitores. Da mesma forma que aquele que quiser segurar a caneta do executivo deverá ter em mente que urgem respostas para vários problemas.

Um tema relevante é a questão do trânsito e do transporte: a otimização e organização do espaço, a fiscalização às leis de trânsito, a definição real do papel da guarda municipal no que se refere ao tráfego são problemas esperam solução.

As questões da infraestrutura são importantes, mas não basta deslocar gradativamente os órgãos públicos da cidade para o Green Valley ou Praça Cruzeiro construindo novos prédios. O crescimento dos distritos também deve ser levado em conta pelo(a) novo(a) prefeito(a) que deverá se preocupar, especialmente, com o distrito de Boa Esperança e arredores, principalmente as comunidades do interior que, pela distância, ficam esquecidas e merecem o incentivo de novos loteamentos residenciais e melhor saneamento básico.

O parque industrial e as obras de acessibilidade são significativos, mas também devem estar em conformidade com a legislação federal vigente. A execução e manutenção destes pontos são imprescindíveis.

No que tange a saúde, o ponto nevrálgico é a ausência de profissionais. A falta das condições necessárias para que os médicos realizem seu trabalho, como mais recursos e melhores salários, inviabilizam um bom atendimento e prejudicam os cidadãos. Os recursos são parcos e as dificuldades patentes. De fato, temos um bom hospital e ainda contamos com a UPA. Entretanto, se levarmos em conta que o atendimento prestado vai muito além da população de Rio Bonito, devemos convir que é preciso muito mais médicos e atenção ao setor.

Na educação, o desafio de novo encontra suas fronteiras no interior onde as escolas precisam de reformas e os alunos de professores. É bem verdade que é necessária a conscientização do bom uso do material disposto, mas é também verdade que o material precisa ser bem disposto. No ambiente da cultura, convém lembrar que a cidade precisa de uma biblioteca pública aparelhada, de um teatro municipal e, sonhando alto, da volta do cinema que poderia ser incentivada.

Se o estado é laico, precisamos lembrar que prefeitura e câmara municipais não são igrejas. Não defendo um antagonismo entre igreja e estado, mas um companheirismo. Todavia, usar da máquina pública como instrumento de favorecimento religioso é vergonhoso e está ao arrepio da Constituição. A cooperação mútua entre as igrejas e a prefeitura deve ocorrer, porém de forma imparcial, afinal de contas, as igrejas também promovem cidadania, educação, cultura, arte e integração.

Esses são alguns dos pontos que deveriam ser discutidos nesta campanha eleitoral. É claro que existem inúmeros problemas – o da segurança pública, do crescimento do uso das drogas, tratamento de água e esgoto entre outros – que precisariam ganhar espaço na apresentação dos planos para a próxima gestão municipal, mas isso só vai acontecer se os candidatos se propuserem a discutir com seriedade os assuntos pertinentes e os munícipes cobrarem uma postura democrática de seus candidatos.

Vale lembrar, que cada vez que se vendem votos, esse processo fica completamente viciado e, de novo a política volta ao submundo dos interesses individuais levando não só a cidade ao prejuízo, mas àquele que vendeu seu voto e consequentemente renunciou a melhorias reais para o município. Votar com dignidade e consciência é estar atento ao bem comum!


 

Pe. Fabiano de Carvalho

Pároco de Boa Esperança

Fonte:

CARVALHO, F. Sobre o debate de ideias na campanha política 2012. Folha da Terra, Rio Bonito, p. 2, 11 de ago. de 2012.