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sábado, 14 de maio de 2011

Você no caminho de Emaús!

No ultimo domingo, dia sete de maio, dias das mães e aniversário da cidade de Rio Bonito, RJ, celebramos, numa missa campal para mais de três mil pessoas, o Terceiro Domingo da Páscoa. Estavam reunidas as três paróquias de nosso município sob a presidência do Pe. Eduardo Braga, pároco de Nossa Senhora da Conceição no Centro de Rio Bonito. Concelebrávamos Pe. Marcos André e eu, que tive a honra de pregar a homilia.

Meditamos no evangelho do dia, os Discípulos de Emaús, por isso dei o título desta homilia de “Você no caminho de Emaús” e gostaria de trazer a gravação para que possamos meditar juntos.
Agradeço à gentileza de Luan Xavier que nos emprestou sua voz  e à comunidade Servir que nos auxiliou com sua técnica musical.

Quero agradecer ainda a homenagem do leitor que nos enviou a foto montagem que publicamos. Obrigado pelo carinho.


Boa meditação!

http://www.4shared.com/audio/-UupII5F/Voc_no_caminho_de_Emas.html?


terça-feira, 22 de março de 2011

O Ser Humano não está em extinção!


 

21 de março de 2011. Chega a revista “Época”, da qual sou assinante e procuro ler com freqüência para estar inteirado das notícias do país. Uma página de merchandising, um carro nas seguintes. Folheando, folheando... Página 13... Opa! Primeiro Plano: “Personagem da semana: ‘Pinpoo, a volta do cão prodígio’.”
Um vira-lata desaparecido que foi reencontrado depois de 15 dias desaparecido, após ter sido despachado num aeroporto por meio de uma empresa aérea. Página seguinte a integra da matéria, com um final feliz: “Às 22 horas da quarta-feira, dia 16, Nair Flores [a dona do vira-lata] recebeu uma ligação eufórica da mulher do sargento da Brigada Militar Paulo Ribas da Silva, de 53 anos. Ele e dois soldados do batalhão encontraram o cachorro nas cercanias do Salgado Filho [aeroporto em Porto Alegre]. ‘Quando soubemos da fuga, virou questão de honra capturar o cachorro, que andava nas redondezas’ conta Ribas, dono de dois cães. Por três dias, ele bolou estratagemas para capturar Pinpoo”.
Mais uma página e uma anta! A chamada da matéria, na coluna “Fala Brasil” noticiava que o IBAMA conseguira autuar um fazendeiro de Mato Grosso por caça ilegal de animais silvestres por meio de exame de DNA. O fazendeiro havia dito que a carne que secava ao sol era de porco, quando na verdade era de capivara. Dizia ainda que em 2008 os agentes apreenderam uma porção de carne moída cujas análises demonstraram ser carne de anta.
Lá pelas tantas, na página 41, um cachorro da raça mastiff tibetano, nomeado Hong Dong vendido por 2,5 milhões [o cão mais caro do mundo] dividia a edição com a propaganda da Petrobras, que trazia a foto de uma tartaruga marinha nadando, e anunciava que “todo ser vivo é igual. Todos precisam de água” e que a empresa iria investir, até 2012, R$ 500 milhões no Programa Petrobras Ambiental, que inclui a preservação de recursos hídricos.
Para os leitores, até aqui, nada de mais. Preocupação com animais, ecologia, recursos hídricos. Tudo na mais perfeita ordem se não nos deparássemos, fora das páginas da revista, com a depreciação do ser humano.  
Ao que parece, os animais, a natureza e a ecologia são preferidas à preservação do ser humano. Essa idéia, apesar de não ser uma novidade, tem sido passada muito fortemente (ao mesmo tempo em que veladamente) em vários ambientes. Essa corrente de pensamento tem nome: neo-naturalismo e equipara à natureza humana a natureza vegetal e animal.
Um expoente deste pensamento é Michael Tooley. O neo-naturalismo propõe a redução qualitativa e quantitativa do ser humano para garantir a continuidade da perspectiva ecológica. Assim, é preferível a morte de um recém-nascido que a tortura de um animal ou a queimada de florestas.
Para quem achou exagerada e absurda a proposta, saibam que isto não está longe de nós! Por exemplo, as câmaras de vereadores de Florianópolis e do Rio de Janeiro proibiram a pesquisa cientifica com alguns animais, mas, não raro, vemos muitíssimos políticos defenderem o aborto, as pesquisas com células tronco embrionárias e a morte de anencéfalos.
Na contramão daquelas nefandas opiniões, afirma o Papa Bento XVI, ao enviar sua mensagem por ocasião da Campanha da Fraternidade de 2011:

“O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação. Por isso, a primeira ecologia a ser defendida é a “ecologia humana” (cf. Bento XVI, Encíclica Caritas in veritate, 51). Ou seja, sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher; sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais, nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio-ambiente.”

Com este simples parágrafo o Pontífice solapa não só as perspectiva de Tooley, mas também as idéias de Skinner, para quem a verdade é um objetivo alcançado através do mensurado e quantificado, isto é, um conhecimento válido e experimental, enquanto os conceitos como pessoa, natureza e dignidade humana, bens fundamentais e outros perdem sua cientificidade; as idéias de M. Farrell, D. Lyons e T. Scanlon que reconhecem o direito a vida e seus correlatos (direito a ser concebido na família e através do ato conjugal), mas insistem que esses direitos não estão necessariamente presentes em casos concretos e pontuais e podem ser deixados de lados para o crescimento social; as teses de Foucault que negam a titularidade dos direitos humanos, já que o ser humano é constituído por estruturas inconsciente e, desse modo, a vida da pessoa humana pertence ao grupo que detém o poder de modo que, quando o proletariado tomasse o poder, poderia coagi-la com violência sangrenta; os absurdos de H. Triston Engelhardt e R. Dowokkin (dois autores muito presente na área da bioética) que, embora aceitando a natureza humana, seu valor e o conceito de pessoa humana, afirmam a distinção entre ser humano e ser pessoa, abrindo caminhos de morte, por que só pessoas têm direito e em particular direito a vida, mas que, o ser humano só é pessoa quando é adulto capaz de arrazoados e responsável por seus atos de modo que os não nascidos, doentes, deficientes são seres humanos, mas não pessoas e por isso não têm direito a vida e podem ser mortos.
Decerto, o leitor pode não ter conhecido os autores que citamos neste artigo, no entanto, certamente já se deparou com essas idéias, de modo velado ou não e, pode até ter concordado com elas sem ver o que está por detrás de cada um dos arrazoados sem razões legítimas e sem saber que, no fundo, concordava como uma cultura de morte.
Vem em nosso auxílio o Magistério Papal de Bento XVI que nos ensina que:

“O primeiro passo para uma reta relação com o mundo que nos circunda é justamente o reconhecimento, da parte do homem, da sua condição de criatura: o homem não é Deus, mas a Sua imagem; por isso, ele deve procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus. «Quem sabe reconhecer no cosmos os reflexos do rosto invisível do Criador, é levado a ter maior amor pelas criaturas» (Bento XVI, Homilia na Solenidade da Santíssima Mãe de Deus, 1 de Janeiro de 2010).”

Não esperemos que o ser humano seja declarado “espécie em extinção” para defendermos os valores da cultura da vida, mas, ao contrário, nos empenhemos com atitudes de vida para um mundo que entenda, viva e colabore para que outros tenham vida plenamente. 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo amigo”


Pensava no mistério de Deus que insiste em nos surpreender com momentos e pessoas que não imaginávamos, mas que tanto necessitávamos. Pensei na paróquia, nos paroquianos, nos amigos mais próximos, em mim e, finalmente no grande Dom de Deus que agora nos une. Que belo mistério que celebramos!

Não deve ser a paróquia um pouquinho de nossas casas? Aqui deve acontecer o mistério do amor: prático e gratuito. Cada um dos paroquianos que aqui se reúne para amar a Deus sobre todas as coisas deverá sempre buscar a reciprocidade concreta. Cada amigo que daqui se aproximar deverá antes se aproximar de Deus. E eu – este pequeno e frágil instrumento – devo buscar viver e ensinar a viver esse grande dom: a Amizade!



Mas esses elementos: Amor prático e gratuito; reciprocidade concreta; proximidade com Deus; e, por fim, pequenez são os ingredientes de uma Verdadeira Amizade em Cristo. Nisto todos se igualam e são importantes, porque todos, Absolutamente todos, podem oferecer o dom da Amizade!

É óbvio que nem sempre os amigos fazem o que queremos, mas é certo que todos os amigos sempre buscam fazer o bem. É certo que nem sempre os amigos são tão bons como pensamos ou o quanto desejamos, mas eles sempre buscam fazer o melhor que podem, e por isso são bons ao seu modo. Também os amigos nem sempre são capazes de ser tão grandes quanto imaginamos, mas, às vezes, o que precisamos é de alguém que consiga ser tão pequeno a ponto de chorar ou rir conosco em todos os momentos.

Em fim, o que a nossa paróquia – e me sinto feliz e honrado ao dizer “nossa paróquia” – precisa é do grande dom da Amizade que, diante de Deus, nos torna todos iguais.

Por isso, nossa proposta pastoral não pode e nem deve ser outra senão a de deixarmos para lá tudo aquilo que não constrói essa Amizade. Conto com vocês, cada um de vocês, para juntos construir sobre o sólido alicerce da Amizade, uma paróquia na qual possamos receber e transmitir o Grande Dom de Deus.

A Virgem Santíssima, nossa Grande Amiga, porque é mãe, nos assistirá com sua Onipotência Suplicante neste belo caminho que vai requerer nosso esforço.

Com Maria para construir na Amizade uma paróquia que cresce em Santidade!

 


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pio XII era mesmo culpado?



Muitas vezes a história, por pior que o pareça, é distorcida e controvertida. O caso mais nefando que se pode contar entre o número destas barbáries é, sem dúvida o caso do Papa Pio XII que foi acusado de apoiar Hitler na chamada “solução final”. Disso o acusaram os autores Rolf Hochhuth, na peça teatral “O Vigário de Cristo”[1] e Jonh Cornwell na obra “O Papa de Hitler”[2].


Não obstante a vociferação inútil em prol de denegrir a imagem do Grande Papa dos Judeus, vozes advogadas destinaram seus esforços em trazer à tona a verdade dos fatos de modo a colocar a história de novo no eixo da verdade.
O jornalista Andrea Tornielli, nascido em Chioggia (Itália) em 1964, licenciado em Letras clássicas, recolheu num volume muito denso e não menos completo, os testemunhos em favor da postura de Pio XII.
Em seu livro “Pio XII, o Papa dos Judeus” Tornielli procura não só apontar os fatos históricos relativos àquela sombria época, mas os documenta e recorre a inúmeros autores (uma lista bibliográfica de oitenta e um livros consultados) para abalizar a verdade sobre os fatos.
Tornielli, além de evidenciar os erros de pesquisa de Cornwell, mostra ainda que a aquela pseudo pesquisa que visou denegrir o Papa dos Judeus não foi tão acurada assim, uma vez que os registros de entrada da Biblioteca Vaticana só guardam de Cornwell três únicas visitas. Corrige também, várias vezes, erros de datação cometidos pelo autor de “O Papa de Hitler”.
Percorre muitíssimos documentos, não só da Santa Sé, mas também de embaixadas e governos para mostrar a voz de Pio XII contra a Shoa e o nacional socialismo. Outrossim, recorda os grandes manifestos de Judeus agradecidos pela intervenção do Papa na luta por esconder os Judeus perseguidos – desde as grandes deportações em massa, passando pela abertura dos mosteiros, conventos (inclusive a quebra das clausuras papais) e a abertura das nunciaturas até as portas abertas de Castel Gandolfo e do Vaticano que acolheram um número expressivo de Judeus fugidos da perseguição nazi.


Recolhe tanto os pedidos de intervenção antes e durante a Grande Guerra quanto os agradecimentos enviados por eminentes judeus no pós-guerra. Apresenta em números as ajudas do Papado e apresenta assim a grande influencia da Igreja por meio de Pio XI e Pio XII.
Da nunciatura em Alemanha ao Trono Pontifício no Vaticano, Eugenio Pacelli traçou o mais importantes liame entre judeus, cristãos e poder temporal por meio de uma intrincada rede de influências – quer oficiais, por meio das nunciaturas, que extra oficiais, por meio de suas ordens secretas aos núncios, bispos, padres e religiosos, em favor de salvar o maior número possível de Judeus.
O ponto máximo do livro, certamente é tornar claro o labirinto político e diplomático no qual se encontrava Pio XII e que o levou a tomar as posturas políticas que fizeram a história acontecer:

“No discurso ao Sacro Colégio por ocasião da festa de Santo Eugenio, Pio XII diz claramente e com todas as letras que há pessoas que, por causa da sua pertença a uma determinada estirpe são submetidas a ‘coações exterminadoras’. ‘Por outro lado, não vos admireis, veneráveis irmãos e dilectos filhos, se o nosso espírito responder com solicitude particularmente cuidadosa e comovida às súplicas daqueles que se dirigem a nós, ansiosamente, atormentados como estão por razão da sua nacionalidade ou da sua estirpe, por maiores desgraças e com dores mais agudas e destinados, por vezes também sem culpa sua a coacção exterminadoras. Não esqueçam os que regem os povos que aquele que (para usar a linguagem da Sagrada Escritura) ‘detém a espada’ não pode dispor da vida e da morte dos homens, a não ser  segundo a lei de Deus, de quem lhe vem todo o poder”
(TORNIELLI, A. Pio XII, O Papa dos Judeus. Livraria Civilização Editores, Porto.)



O autor coloca ainda em paralelo com as ações da Santa Sé naquele nefando episódio as parcas ações de autoridades Aliadas em favor dos judeus.
O Livro Pio XII, o Papa dos Judeus tem 399 páginas que incluem um apêndice com reproduções de autógrafos de Pacelli – incluindo as correções autógrafas de Eugenio Pacelli na Mit brennender Sorge[3] e foi editado pela editora portuguesa Livraria Civilização Editores, Porto. Um Livro que realmente traz à luz uma parte da história que se tentou manter obscurecida.


[1] Hochhth R., Der Stellvertreter, Rohwolt Verlag, Hamburgo 1963; ________. Il Vicario, Feltrinelli, Milão 1964
[2] Cornwell, J., Il Papa di Hitler, Garzanti, Milão, 2000.  
[3] “Com profunda preocupação” de 14 de Março de 1937. Carta Encíclica de Pio XI que fez a condenação expressa e formal dos erros do nacional-socialismo alemão (nazismo).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Conversão Da Princesa


O Senhor havia dito que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha que um rico entrar no céu (cf. Mt 19,24) e, como sempre, não estava errado! Muitas vezes, junto com a riqueza matéria, social e até cultural, vem um sentimento de auto-suficiência que leva-nos ao fechamento. Por este motivo um rico não entra no reino do céu!

O reino do céu é participação em Deus, no Cristo, por meio do Espírito Santo – o que é fruto do amor, uma vez que é a abertura para o bem, quer contemplado, quer experimentado, quer feito. O fechamento a isso (a auto-suficiência, portanto) é o que chamamos de egoísmo.
Não raro vemos também tais atitudes nas pessoas financeiramente menos abastadas e esse fato põe a claro que a “riqueza” de que Jesus fala não está relativa à quantidade de bens, mas à quantidade de apego a nós mesmos e a nossas coisas, de ordem material, emocional ou espiritual.

A Princesa Dona Alessandra Romana dei Principi Borghese, em seu livro “Com Olhos Novos, a história da minha conversão” [Publicado em português pela editora portuguesa DIEL em outubro de 2006], põe diante de nós, nas linhas que testemunham seu encontro com Cristo, o “NOVO de Deus” a que sua gradual experiência a conduziu: a compreensão de que era necessário abandonar-se nas mãos de Deus reconhecendo que “... todos nós não passamos de filhos necessitados de perdão, de compreensão, de amor, de esperança. Mas todos sob um olhar onde convivem misericórdia e justiça.” (BORGHESE, A. Com Olhos Novos, a história da minha conversão. Lisboa. DIEL, 2006 p. 16).


Uma profunda vivência que ultrapassa, com o amor, a mera teoria e, gerando uma mudança no coração fez sua vida ser vista com olhos novos. Ao concluir seu livro, a autora declara sonoramente aos homens e mulheres de hoje:

“Seja o que Deus quiser. Digo-o com firmeza, pois doravante sei que minha fé não é cega nem sentimental. É antes um acto de libérrima obediência Àquele que, como vim finalmente a descobrir, estava apaixonado por mim (Ibid. p.190).

Certamente um testemunho de conversão que também nos levará a considerar a nossa vida com olhos novos.


sábado, 23 de outubro de 2010

Vocação, Medos e Armas



Nota: Escrevi e publiquei este artigo no Jornal Rio Bonito Católico da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição - Rio Bonito/ Centro, no mês de Agosto de 2010.
CARVALHO, Fabiano. Vocação, Medos e Armas.Rio Bonito Católico, Rio Bonito, Agosto 2010.
 

Não muito cedo, em minha experiência vocacional com Deus, tive a plena certeza de que era necessário perder o medo para deixar as armas para traz e isso me deu condições de visibilidade no horizonte da vida, que nem sempre é límpido e retilíneo. Creio que, para o jovem de hoje, é necessário também deixar os medos e as armas para traz de modo a assumir maduramente a vocação.

Como seminarista, trabalhei num encontro de jovens cuja média etária era de 15 à 18, e uma pergunta foi feita numa dinâmica: “o que neste mundo lhe causa medo?”. A expectativa de resposta por parte dos organizadores era algo em torno dos assuntos mais expostos na mídia: assaltos, guerra, narcotráfico e problemas de ordem social. Qual não foi a surpresa dos organizadores ao se depararem com uma resposta de outra ordem e dimensão!

Pareceu unânime: os jovens tinham medos de ordem pessoal! Coisas como não ser bem sucedido, não saber o que fazer, não conseguir seguir uma carreira ou profissão. Tudo isso revelava um medo de ver seus projetos e planos frustrados por um mundo competitivo e desigual na área pessoal.

O resultado me fez refletir o porquê de um jovem daquela faixa etária estar tão amedrontado com as perspectivas de futuro se, teoricamente, tem todas as expectativas à sua frente, com todas as oportunidades e o vigor da própria juventude.

Mas o resultado abriu em mim outra reflexão que me fez entrar nos meus próprios medos! Por aquela época eu estava no terceiro ano de teologia e também tinha dois medos: o medo de ser padre e o medo de não ser padre. Muitas vezes os medos são tão grandes em nós que simplesmente não temos palavras para formulá-los e nem sempre conseguimos pensá-los.

O medo das responsabilidades do sacerdócio, a preocupação em ser fiel àquilo que queria assumir e de dar conta de todas as coisas relativas à vida do sacerdote já no seminário e o peso de ter que ser bom para ser sacerdote causava imenso medo. Mas essa moeda tem dois lados e o outro lado era exatamente o oposto, o medo de não ser padre, afinal eu já tinha dedicado muitos esforços, muito tempo e vários investimentos de muitas ordens. Tudo isso eram medos.

Vi que esses medos eram combatidos com armas que nem sempre eram corretas e até muitas vezes agressivas: vaidade para tentar parecer o melhor, atitudes irresponsáveis para fugir aos estereótipos, questionamentos extremamente críticos que geravam exigências exageradas comigo mesmo e com os outros. Paralisava-me pensar em ser ou não ser padre e passei umas semanas nesse beco sem saída tentando achar armas humanas para superá-lo. Cada vez que buscava armas, os medos aumentavam.

Então, diante de Jesus sacramentado encontrei uma resposta (não por mim, eu mesmo não seria capaz dela, mas uma inspiração): era necessário deixar os medos e as armas! No beco sem saída, a saída era o alto! A lógica era simples: Deus é onisciente, sabe todas as possibilidades: as de eu ser padre, as de eu não ser padre e de ser qualquer outra coisa na vida. Mas esse Deus que é conhecedor de todas as possibilidades é também o Deus que me ama, isto é, não quer meu mal, não quer minha morte. Sendo assim a saída para esse medo era não lutar mais com minhas armas, mas deixar que Deus decidisse por que o que ele fizesse seria bom para mim.

Aqui o abandono em Deus foi a atitude de segurança, porque Ele me chamou, Ele me acompanha e Ele me espera. Foi quando consegui sair do beco do medo e ver a minha história de vida e vi que minha vocação já tinha sido gravada nela e que cada etapa, cada momento costurava com muita delicadeza uma proposta de amor. Neste momento senti-me pisando num chão, seguro e forte, senti-me no chão de minha própria vida e então o meu sim era mais meu que das circunstâncias, mas meu que dos outros, mais meu que dos medos.

Só abandonando os medos e as armas pode-se olhar para o alto e descobrir Deus que sempre fez história na história particular de cada um. Com base nessas experiências pessoais com Deus é possível olhar a vida como o “lugar” onde Deus fala e, pisando com segurança e carinho nesta história de vida por Deus construída, pode-se dizer um sim de amor sincero e seguro, por que é Ele mesmo quem garante, no amor, nossas escolhas. Então a resposta à vocação é acertada e a possibilidade de felicidade é concretizada.

Pe. Fabiano de Carvalho

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Missão


Nota: Escrevi e publiquei este artigo no Jornal Rio Bonito Católico da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição - Rio Bonito/ Centro, no mês de outubro de 2010.
CARVALHO, Fabiano. Vocação, Medos e Armas. Rio Bonito Católico, Rio Bonito, Outubro 2010.





“A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se frente àqueles que pretendem cobrir a variedade e a complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários.”
(Documento de Aparecida, 11)





Com estas palavras o Documento de Aparecida abre uma visão esclarecedora sobre a idéia de missão na Igreja de modo atualizado, sem perder, contudo, a centralidade do mandato missionário: “Ide pelo mundo e pregai o Evangelho a toda criatura, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mc 16,15).
Colocar Jesus novamente no centro da missão é uma tarefa importante para toda a Igreja que, ao mesmo tempo em que se torna urgente, figura como um impulso natural do coração que, tendo encontrado a alegria de ser cristão, deseja comunicar a todos esse mesmo dom.
A missão, portanto, enquanto é anúncio de uma experiência pessoal com Jesus Cristo tem como base a comunidade dos crentes, a oração e a eucaristia. Esses aspectos não devem ser de modo algum negligenciados na nossa espiritualidade paroquial. Essa é a abertura necessária frente ao mundo para dialogar ao mesmo tempo em que anuncia o mistério da Salvação em Cristo.
Transformar o anúncio do Evangelho em simples expressão de uma pseudo fraternidade universal descaracterizaria o próprio mandato de Cristo de modo que ocorreria uma cisão entre Reino de Cristo e o próprio Cristo o que acarretaria num empobrecimento do mandato missionário.
Essa dinamicidade do anúncio missionário da verdade de Cristo, sugere o Documento de Aparecida, é incrementada pelo método “ver, julgar e agir”: “Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua Palavra revelada e o contato vivificador dos Sacramentos, a fim de que, na vida cotidiana, vejamos a realidade que nos circunda à luz  de sua providência e a julguemos segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e atuemos, a partir da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de salvação, na propagação do Reino de Deus, que semeia nesta terra e frutifica plenamente no Céu.” (Documento de Aparecida, 19)
Sem dúvida alguma, nossa história, mesmo que alguns tentem apagar, está marcada pela influência da Igreja. Neste aspecto, a sociedade em geral é devedora da ação missionária da Igreja. Contudo, esse âmbito histórico não deve nos deixar entorpecido, mas deve nos impulsionar a irmos além e continuar influenciando, contribuindo e corrigindo na sociedade as atitudes humanas.
Nossa missão, deste ponto de vista, se estende para outros âmbitos cuja contribuição moral podemos e devemos oferecer, uma vez que, sendo perita em humanidade, a Igreja deseja defender, como de fato defende, o ser humano em sua integridade, do nascimento à sua morte natural.
Pode-se facilmente perceber que nossa missão não alcança só uma “propaganda” sobre um personagem, mas uma mudança de atitude e uma conversão moral de toda a sociedade, começando pelo individuo.
Diante de todos esses elementos é necessário empreender uma nova reflexão para uma nova atitude missionária de modo a tornar tão efetivo quanto afetivo nosso empenho missionário que leve a bom termo nossos esforços pelo homem e, através dele, pela sociedade.