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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ligar e Desligar



Achei no “rescaldo” do meu arquivo digital da época de faculdade um trabalho apresentado sobre um tema interessante: “Ligar e Desligar”. Não lembro bem, mas tenho a impressão de que esse trabalho foi feito em grupo e como é de se esperar, não lembro, tampouco, quem foi o grupo.
Espero que seja boa a leitura e possa ajudar a compreender o tema.

Deus abençoe



INTRODUÇÃO

Neste trabalho, de forma concisa, apresentar-nos-á os termos “ligar” e “desligar” no seu significado bíblico e na sua compreensão e aplicação eclesial.

Partindo, em primeiro lugar, da Escritura, dar-se-á a interpretação dos textos que se referem a estes termos ou que sejam muito próximos destes. Após, tomando como base trechos do Catecismo Romano e do Catecismo da Igreja Católica, passar-se-á à compreensão e aplicação eclesial do “ligar e desligar”. Por fim, vislumbraremos, na Constituição Dogmática sobre a Igreja, “Lúmen Gentium” do Concílio Ecumênico Vaticano II, os supracitados termos e o que o concílio tem a dizer sobre eles.

I. TEXTOS BÍBLICOS RELACIONADOS AOS TERMOS E SUA EXPLICAÇÃO

Abordar-se-á agora aos textos de Mt 16,19-20; 18,18 e Jo 20,19-23, pois são os textos que tratam do assunto em questão. Haverá ainda alguma referência a outros textos que façam algumas ressonâncias a ele.

1.1. Os textos do evangelho de Mateus: Mt 16,19; 18,18

“A ti darei as chaves do Reino de Deus: o que ligares na terra ficará ligado no céu; o que desligares na terra ficara desligado no céu” [1]. “Eu vos asseguro que o que ligardes na terra ficará ligado no céu, o que desligares na terra ficará desligado no céu” [2].

Estes dois textos, segundo Gonzalo Flórez[3], se referem ao poder de perdoar pecados cometidos após o Batismo.

O primeiro texto, Mt 16,19 se insere na profissão de fé petrina e na missão confiada pelo Senhor aos apóstolos, sobretudo a Pedro, chefe deste corpo apostólico. Segundo Schoëckel, “Pedro terá as chaves de acesso ao Reino de Deus e terá o poder de julgar, perdoar e condenar, ratificado por Deus” Tal poder é dado também aos outros apóstolos, como fica claro no texto de Mt 18,18. [4]

Na comunidade judaica, os termos “ligar” e “desligar” se relacionam ao poder que tinham os principais da comunidade de separar da mesma comunidade alguns dos membros, seja por má conduta ou doutrina errônea. Primeiro, o infrator era afastado da comunidade (ligar) depois, podia cumprir uma pena – se arrependido – e, por fim, ser readmitido na comunidade (desligar). “Ligar” e “desligar” eram o máximo de poder religioso dos dirigentes. Tal procedimento foi seguido nas comunidades Judeu-Cristãs.

A Penitência vivida na Igreja nos primeiros séculos adapta-se a este modo de entender o poder de ligar e desligar: começa afastando o pecador da comunhão eucarística, para terminar por readmiti-lo à mesa do Senhor. [5] A ação de ligar manifesta a ruptura da aliança com Deus por parte do pecador, ligando-o ao domínio do diabo para que se disponha a sair desta escravidão e do seu influxo maligno. [6]

O afastamento de um membro, por um tempo, da vida litúrgica da comunidade e a sua posterior re-incorporação, mais que uma medida moral ou disciplinadora, explicita a necessidade de viver em verdade e sinceridade a união com Deus e com os irmãos. A comunhão entre os membros do Corpo de Cristo é um mistério que deve manifestar-se na vida dos Cristãos, caso em contrário, cabe à Igreja fazer com que seus filhos trilhem o caminho da reconciliação com Deus e com os irmãos.

Por fim, tais textos podem ser entendidos, tendo diante dos olhos a missão e a natureza da Igreja. O poder de “ligar” e “desligar” se refere ao governo da Igreja em todos os seus aspectos (doutrinal, disciplinar, caritativo, etc.) e também a sua intervenção em relação aos pecadores. Como a Igreja pode ser entendida também através de categorias jurídicas e disciplinares, tal interpretação também é válida. “La reconciliación de los pecadores derivaria del ejercicio de la potestad jerárquica  de la Iglesia, em cuanto atiende a la unidad y disciplina de sus membros.[7]

1.2. Os textos do evangelho segundo João (Jo 10,19-23)

“Ao entardecer desse dia, o primeiro da semana, os discípulos estavam com as portas bem fechadas, por medo dos judeus. Jesus chegou, pôs-se no meio deles e lhes diz: ‘ – A paz esteja convosco! ’ dito isto mostrou-lhes as mãos e os lados. Os discípulos se alegraram ao ver o Senhor. Jesus repetiu: ‘ – A paz esteja convosco!’Como o Pai me enviou, eu vos envio’ . Disse isso, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘ – Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; a quem os mantiverdes, ficarão mantidos”.

Schoëckel apresenta, na Bíblia do Peregrino, em comentário muito elucidativo a respeito do texto:

“O poder de perdoar ou imputar pecados soa como variante de Mt 18,18 e Mt 16,19. A expressão polar (os dois termos) pode significar totalidade (cf. Is 22,22) o poder simbolizado pelo controle da porta ‘Eu lhe porei no ombro a chave do palácio de Davi: o que ele abrir ninguém fechará, o que ele fechar ninguém abrirá)’ os verbos estão na passiva teológica, ‘ficam perdoados’ (por Deus). É um poder que discerne e julga que reconcilia ou exclui, que se dá em primeiro lugar aos discípulos, e que eles exercerão de formas diversas (aqui entram as interpretação e explicação posteriores): admitindo ou não o batismo; na penitência também sacramental (embora imputar ou reter pecados não seja ato sacramental, mas sim exercício de poder).”

A saudação do Senhor[8] aos discípulos virá a por fim no medo humano diante do sobrenatural. A paz é fruto da presença do Ressuscitado. O envio dos discípulos análogo ao seu próprio envio, da parte do Pai, se relaciona com a ação do Espírito Santo na Igreja. Jesus sopra sobre os discípulos e lhes o Espírito Santo, que aparece como dom de consolação, congregação e assistência no cumprimento da missão dos crentes e discípulos de Jesus. “Todo lo que precede em la discripcion de esta primera aparición de Jesús a sus discipulos no viene sino a resaltar la importancia del ‘logion’ final: ‘A quienes perdonéis los pecados, lês quedam perdonados; a quienes se los retengas (o imputeis), les quedan retenidos (o imputados)[9]

O perdão dos pecados é apresentado como um poder dado por Jesus para ser exercido na e pela Igreja e não como um mandado de anúncio. Tal poder no Novo Testamento é uma graça fruto da redenção, presente de Cristo para a Igreja. Os discípulos tornam-se “portadores del perdón que El mismo ha conquistado y comunicado [10]”.

Quando Jesus diz “... a quem mantiverdes (retiverdes) ficarão mantidos (retidos) [11]”, fica mais explicito que ele deu aos seus discípulos poder sobre o perdão dos pecados. O verbo reter no Novo Testamento significa sujeitar, agarrar ou apoderar-se de alguém; no caso ele apareceu contraposto a perdoar, com o sentido de imputar ou de reter.
Tal texto é muito próximo do texto de Mt. Pode-se dizer que, embora provenientes de tradições diferentes, há uma interdependência entre eles que tornará mais e melhor compreendido esse poder de ligar/ reter e desligar/ perdoar.

II. “LIGAR” E “DESLIGAR” NO CATECISMO ROMANO E NO CATECISMO ATUAL.

Além da visão bíblica sobre os termos “ligar” e “desligar” e a sua compreensão na Igreja, agora, passa-se a tratar desses termos e seus respectivos significados para a Igreja enquanto são apresentados pelos catecismos, seja o Catecismo Romano (pós-concílio tridentino) seja o Catecismo da Igreja Católica (pós-concílio Vaticano II). Tal abordagem permitirá uma compreensão pastoral acerca do assunto em questão.

2.1. “Ligar” e “desligar” no Catecismo Romano

No Catecismo Romano, os termos “ligar” e “desligar” encontram-se na segunda parte, que trata dos sacramentos, no capítulo quinto, destinado ao sacramento da Penitência, no parágrafo onze. O fato de os termos situarem-se no tratado dos sacramentos, em especial o da penitência, mostra a compreensão da Igreja, sobretudo (e não exclusivamente) no contexto da absolvição ou não dos pecados. Diz o Catecismo Romano:

“... nos atos e palavras do sacerdote reconhecemos a misericórdia de Deus, que perdoa esses pecados. Isto é, que provam, absolutamente a palavra do Salvador: ‘Eu te darei as chaves do Reino dos céus... Tudo o que desligares na terra, será desligado também no céu’”[12]

Portanto, a Igreja consolida-se, após Trento, na compreensão e na vivência do sacramento da Penitência como a atualização e realização eclesial das palavras do Senhor a Pedro. A interpretação de Mt 16,19 e 18,18 juntamente com a de Jo 10, 19-23 fundamenta o sacramento da Penitência e o seu caráter de “reunir” o pecador a Deus e à Igreja ou de mantê-lo desunido deles caso não os procure ou os procure sem arrependimento necessário.

 2.2. “Ligar” e “desligar” no catecismo da Igreja Católica

O atual catecismo apresenta os termos, ou o tema do poder dito “das chaves” em dois momentos diferentes: O primeiro, na primeira parte – a profissão de fé Cristã: o Capítulo III – Creio no Espírito Santo; Artigo X – creio no perdão dos pecados; item II – o Poder das Chaves. O segundo momento, na Segunda Parte – A celebração do mistério Cristão; Segunda Seção – Os sete sacramentos da Igreja; No capítulo II – Os sacramentos de cura; no Artigo IV – O sacramento da Penitência e da Reconciliação; item VI – O sacramento da penitência e da reconciliação.

Nessas duas ocorrências, quer “ligar” e “desligar”, quer “o poder das Chaves”, estão inseridos no horizonte do perdão dos pecados e da reconciliação do Cristão pecador com Deus e com a Igreja. Em primeiro lugar, enfatiza-se o Cristo que confere aos apóstolos um poder e uma missão de perdoar os pecados:

“Depois da ressurreição, Cristo enviou seus Apóstolos para anunciar a todas as nações o arrependimento em seu Nome em vista da remissão dos pecados (Lc 24, 47). Este ‘ministério da reconciliação’ (2Cor 5,18), os Apóstolos e seus sucessores não o exercem somente anunciando aos homens o perdão de Deus merecido para nós por Cristo e chamando-os à conversão e à fé, mas também comunicando-lhes a remissão dos pecados pelo Batismo e reconciliando-os com Deus e com a Igreja graças ao poder das chaves recebido de Cristo.” [13]

Depois se acentua mais a dimensão eclesial desse perdão:

“Conferindo aos Apóstolos seu próprio poder de perdoar os pecados, o Senhor também lhes dá a autoridade de reconciliar os pecadores com a Igreja. Esta dimensão eclesial de sua tarefa exprime-se principalmente no solene palavra de Cristo a Simão Pedro: ‘Eu te darei as chaves do Reino dos céus, e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus’ (Mt 16,19)...
As palavras “ligar” e “desligar” significam: aquele que excluirdes da nossa comunhão, será excluído da comunhão com Deus; aquele que receberdes de novo à nossa comunhão, Deus o acolherá também na sua. A reconciliação com a Igreja é inseparável da reconciliação com Deus” [14]

Estes dois textos, que dispensam comentários, deixam claro, portanto que a Igreja encara quer o “poder das Chaves”, quer o poder de “ligar” e “desligar” como dons de Cristo para os seus com o fim de edificar a Igreja através do perdão dos pecados, readmitindo os fieis na comunhão com a comunidade e com Deus mesmo.
  
 III. “LIGAR” E “DESLIGAR” NA LG 22

A Constituição Dogmática sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II; ao tratar da ordem dos bispos e da sua participação no magistério e no regime pastoral dos Apóstolos, e união com o sucessor de Pedro; acaba por tocar o tema do “poder das chaves” e dos termos “ligar” e “desligar”.

“...a Ordem dos Bispos, que sucede ao colégio apostólico no magistério e no regime pastoral, e na qual perdura continuamente o corpo apostólico em união com a sua cabeça, o Romano Pontífice, e nunca sem ele, é também detentora do poder supremo e pleno sobre a Igreja universal, mas este poder não pode ser exercido senão com o consentimento do Pontífice Romano. Só a Pedro o Senhor pôs como rocha e portador das chaves da Igreja (cf. Mt 16,18s) e constituiu pastor de toda a sua grei (cf. Jo 21,15ss); mas o oficio que deu a Pedro de ligar e desligar (cf. Mt 16,19), é sabido que o deu também ao colégio dos apóstolos, unido com sua cabeça (cf. Mt 18,18;28,16-20).[15]

O Concílio afirma que as “chaves” foram confiadas a Pedro, isto é, que o papa é o detentor do poder pleno e supremo sobre a Igreja. As “chaves”, aqui, são lidas como autoridade máxima, submetida à Palavra, sobre toda a Igreja. O oficio dado a Pedro de “ligar” e “desligar” também é lido como autoridade e pastoreio sobre toda a Igreja; mas sobre este ofício é dito que também foi confiado aos demais apóstolos e, assim, também aos bispos, com a condição da comunhão com o papa, cabeça do colégio episcopal.

Aqui, os termos “ligar” e “desligar,” são empregados, não negando seu sentido de exclusão e re-inclusão na comunhão, ou aquele de perdoar ou reter os pecados, mas no sentido mais amplo que tem o ministério dos apóstolos na Igreja. Os poderes de excluir e de re-incluir na comunhão e de perdoar ou de reter os pecados estão contidos naquele mais amplo, confiado pelo Senhor aos seus apóstolos e aos seus sucessores.

“Ligar” e “desligar”, na LG 22, indicam, pois, o poder ou a capacidade dos apóstolos e dos seus sucessores, de administrar na terra os bens do céu e de agir na terra em nome Daquele que está no céu. Os sucessores dos apóstolos são assistidos e confirmados em seu pastoreio, ensino e santificação do povo de Deus pelo próprio Deus, desde que o façam em comunhão com o sucessor de Pedro, inclusive no que concerne ao sacramento da Penitência.

Portanto, “ligar” e “desligar” aparecem no Concílio Vaticano II indicando, sem excluir o seu sentido para o sacramento da penitência, a autoridade e o poder apostólico do papa e dos bispos (autoridade, poder, concedidos a eles, por Deus, em Cristo, no Espírito Santo, através da sucessão apostólica) para o serviço de santificação, ensino e pastoreio do povo de Deus.

CONCLUSÃO

      Ao fim deste trabalho, fica patente que os termos “ligar” e “desligar”, contidos em Mt 16, 19 e em Mt 18, 18 podem ser interpretados basicamente de duas formas:

      A primeira interpreta os supracitados termos referindo-os a Jo 20, 23, ao perdão e à retenção dos pecados, poder que o Ressuscitado dá aos doze e que é paralelo ao significado de “ligar” e “desligar”, pois esses termos se referiam à exclusão e re-inclusão de membros das comunidades judaicas que tivessem cometido alguma falta grave. Essa primeira interpretação ligou os termos em questão ao contexto penitencial, pois eles provêm daí, e à prática da penitência, consolidando-se, por fim, na Confissão sacramental com absolvição dos pecados. Os Santos Padres e a tradição catequética e doutrinal da Igreja reforçam essa via de compreensão.

      A segunda, interpreta “ligar” e “desligar” no contexto do poder de governo dado pelo Senhor a Pedro em Mt 16,18 e as Doze em Mt 18,18. Tal interpretação enfoca o carisma que os apóstolos presididos por Pedro receberam para ensinar a verdadeira doutrina, santificar o povo e guiá-lo para a salvação; poder que foi transmitido aos bispos e ao papa. Eles, com seu ministério agem em nome e com o poder de Deus para o bem da Igreja e Deus possibilita e confirma tal ministério: o que é ligado na terra é ligado no céu.

Essas duas interpretações não se contrapõem, mas se completam. De fato, a administração do sacramento da penitência e o perdão dos pecados próprio deste sacramento são realidades incluídas naquela maior e mais ampla do ministério dos bispos e do papa e de sua mediação para a Igreja.

Portanto, “ligar” e “desligar” são termos que se referem à mediação das realidades salvíficas de Cristo para a Igreja, no ministério dos bispos, sucessores dos apóstolos unidos ao papa; sendo também referentes ao perdão dos pecados, que é parte desta mediação salvífica e expressão mais eloqüente dela. 


[1] Mt 16,19.
[2] Mt 18,18.
[3] G. FLÓREZ, Penitencia y unción de enfermos, Madrid, 2001, p. 66.
[4] A Bíblia do Peregrino, São Paulo, 2002. Comentário ao texto de Mt 18,18.
[5] Ibidem, p 67.
[6] Ibid, p.70.
[7] Ibid, pp. 71-72.
[8] Ibid. p.73.
[9] Ibid, p. 74.
[10] Ibid, p. 75
[11] Jo 20,23.
[12] CATECISMO ROMANO, Petrópolis, (sem data) p. 318.
[13] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, Petrópolis, 1993, n. 981
[14] Ibid, nn. 1444-45.
[15] CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Dogmática Lumen Gentium”, Petrópolis, 1968  n. 22.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Três moedas para um grande tesouro

Três moedas para um grande tesouro
Fiz uma pregação no Cerco de Jericó da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no Centro de Rio Bonito, quando celebrei uma das missas que achei interessante. Para partilhá-la com os amigos que nos acompanham, resolvi postá-la em meu blog quebrando o jejum de alguns meses sem novos artigos. A passagem do evangelho que comento é Mt 13, 44-46. Separei três moedas para comprarmos a grande pérola à qual Jesus compara o Céu.

Agradeço novamente o talento do amigo Luan Xavier por nos conduzir à oração com sua canção! 

Que Deus nos guarde!
Com minha bênção!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo amigo”


Pensava no mistério de Deus que insiste em nos surpreender com momentos e pessoas que não imaginávamos, mas que tanto necessitávamos. Pensei na paróquia, nos paroquianos, nos amigos mais próximos, em mim e, finalmente no grande Dom de Deus que agora nos une. Que belo mistério que celebramos!

Não deve ser a paróquia um pouquinho de nossas casas? Aqui deve acontecer o mistério do amor: prático e gratuito. Cada um dos paroquianos que aqui se reúne para amar a Deus sobre todas as coisas deverá sempre buscar a reciprocidade concreta. Cada amigo que daqui se aproximar deverá antes se aproximar de Deus. E eu – este pequeno e frágil instrumento – devo buscar viver e ensinar a viver esse grande dom: a Amizade!



Mas esses elementos: Amor prático e gratuito; reciprocidade concreta; proximidade com Deus; e, por fim, pequenez são os ingredientes de uma Verdadeira Amizade em Cristo. Nisto todos se igualam e são importantes, porque todos, Absolutamente todos, podem oferecer o dom da Amizade!

É óbvio que nem sempre os amigos fazem o que queremos, mas é certo que todos os amigos sempre buscam fazer o bem. É certo que nem sempre os amigos são tão bons como pensamos ou o quanto desejamos, mas eles sempre buscam fazer o melhor que podem, e por isso são bons ao seu modo. Também os amigos nem sempre são capazes de ser tão grandes quanto imaginamos, mas, às vezes, o que precisamos é de alguém que consiga ser tão pequeno a ponto de chorar ou rir conosco em todos os momentos.

Em fim, o que a nossa paróquia – e me sinto feliz e honrado ao dizer “nossa paróquia” – precisa é do grande dom da Amizade que, diante de Deus, nos torna todos iguais.

Por isso, nossa proposta pastoral não pode e nem deve ser outra senão a de deixarmos para lá tudo aquilo que não constrói essa Amizade. Conto com vocês, cada um de vocês, para juntos construir sobre o sólido alicerce da Amizade, uma paróquia na qual possamos receber e transmitir o Grande Dom de Deus.

A Virgem Santíssima, nossa Grande Amiga, porque é mãe, nos assistirá com sua Onipotência Suplicante neste belo caminho que vai requerer nosso esforço.

Com Maria para construir na Amizade uma paróquia que cresce em Santidade!

 


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A Conversão Da Princesa


O Senhor havia dito que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha que um rico entrar no céu (cf. Mt 19,24) e, como sempre, não estava errado! Muitas vezes, junto com a riqueza matéria, social e até cultural, vem um sentimento de auto-suficiência que leva-nos ao fechamento. Por este motivo um rico não entra no reino do céu!

O reino do céu é participação em Deus, no Cristo, por meio do Espírito Santo – o que é fruto do amor, uma vez que é a abertura para o bem, quer contemplado, quer experimentado, quer feito. O fechamento a isso (a auto-suficiência, portanto) é o que chamamos de egoísmo.
Não raro vemos também tais atitudes nas pessoas financeiramente menos abastadas e esse fato põe a claro que a “riqueza” de que Jesus fala não está relativa à quantidade de bens, mas à quantidade de apego a nós mesmos e a nossas coisas, de ordem material, emocional ou espiritual.

A Princesa Dona Alessandra Romana dei Principi Borghese, em seu livro “Com Olhos Novos, a história da minha conversão” [Publicado em português pela editora portuguesa DIEL em outubro de 2006], põe diante de nós, nas linhas que testemunham seu encontro com Cristo, o “NOVO de Deus” a que sua gradual experiência a conduziu: a compreensão de que era necessário abandonar-se nas mãos de Deus reconhecendo que “... todos nós não passamos de filhos necessitados de perdão, de compreensão, de amor, de esperança. Mas todos sob um olhar onde convivem misericórdia e justiça.” (BORGHESE, A. Com Olhos Novos, a história da minha conversão. Lisboa. DIEL, 2006 p. 16).


Uma profunda vivência que ultrapassa, com o amor, a mera teoria e, gerando uma mudança no coração fez sua vida ser vista com olhos novos. Ao concluir seu livro, a autora declara sonoramente aos homens e mulheres de hoje:

“Seja o que Deus quiser. Digo-o com firmeza, pois doravante sei que minha fé não é cega nem sentimental. É antes um acto de libérrima obediência Àquele que, como vim finalmente a descobrir, estava apaixonado por mim (Ibid. p.190).

Certamente um testemunho de conversão que também nos levará a considerar a nossa vida com olhos novos.


domingo, 21 de março de 2010

São José




São José
Sobre São José o evangelho não guardou muitas palavras. Seu nome aparece somente 17 vezes ao longo do novo testamento (Mt = 9, Mc = 0, Lc = 6 e Jo = 2). Para comparar, o nome "Maria" aparece, no Novo Testamento, 61 vezes aproximadamente e o nome Jesus 1154 vezes.

Não se registram quaisquer palavras suas e tampouco sua historiografia. Contudo, seu exemplo silencioso é muito eloqüente. Desde o princípio da Igreja, os Padres da Igreja puseram em relevo a figura de São José como guarda da Sagrada Família. Assim se expressa Leão XIII na Encíclica Quamquam Pluries "As razões pelas quais o beato José deve ser padroeiro especial da Igreja, e a Igreja se empenha muito à tutela e ao seu patrocínio, nascem principalmente do fato que ele foi esposo de Maria e pai putativo de Jesus Cristo. Daqui vieram todas as suas grandezas, a graça, a santidade e a glória." (Leão XIII, Pp. Quamquam Pluries 10).

Exemplo de vida doméstica, São José foi esposo casto de Maria e Pai putativo de Jesus e, por isso, é chamado Patrono da Igreja, conforme lembra João Paulo II já na introdução da encíclica Redemptoris Custos: "assim também guarda e protege o seu [de Cristo] Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo" (n. 1).

Humilde e sempre pronto, obedeceu aos desígnios de Deus, mesmo quando não os compreendia. Exemplo de amor fiel a Cristo e à Virgem nos convida a imitação das virtudes dos grandes Patriarcas do Antigo Testamento: Amor incondicional a Deus, Empenho voluntário e amoroso com o plano de Deus, Fortaleza diante dos homens para escolher sempre o bem, pureza para saber ouvir e guardar em seu coração a voz de Cristo, humildade no serviço.

Ao educar aquele por quem se fez o céu e a terra, sabendo que Jesus era-lhe submisso e ao custodiar castamente à Virgem Maria, demonstra na sua humildade e zelo puríssimo o modelo de pai de família, ao mesmo tempo em que é modelo de vida consagrada.

São José é de fato nosso pai, uma vez que estamos unidos a Cristo, e é nosso exemplo uma vez que ele mesmo associa-se à fé aceitando unir-se à Virgem Maria no amor pelo "sim" que ela mesma dera ao anjo na anunciação: "Pode dizer-se que aquilo que José fez [a puríssima 'obediência da fé'] o uniu, de uma maneira absolutamente especial, à fé de Maria: ele aceitou como verdade proveniente de Deus o que ela já tinha aceitado na Anunciação" (João Paulo II, Pp. Redemptoris Custos, 4).

O Papa Bento XVI, em 25/07/2009, por ocasião do qüinquagésimo aniversário da proclamação do Patriarca São José como Padroeiro da Igreja Universal, por Pio IX, nos aconselhou à devoção a São José dizendo: "Se considerarmos as hodiernas calamidades que afligem o gênero humano, torna-se mais evidente ainda a oportunidade de intensificar o tal culto [ a São José] e difundí-lo ainda mais entre o povo cristão".

Hoje nós somos convidados a, imitando São José em suas virtudes, chegar ao Cristo que nos chama ao Pai. Assim, seguindo a trajetória de fé que o Patrono traçou com sua vontade forte de amar, devemos nós caminhar com fortaleza, obediência, perseverança e amor puríssimo para chegar às mesmas glórias com que o Pai Adotivo de Jesus foi coroado: O CÉU!

sexta-feira, 5 de março de 2010

O amor é forte como a morte.


"- Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre os teus braços; porque o amor é forte como a morte, a paixão é violenta como o sheol. Suas centelhas são centelhas de fogo, uma chama divina". (Ct 8,6)

 
O amor humano é reflexo inesgotável – embora desfocável – do amor Divino, e é o que leva a duas pessoas a se enamorarem, e enamorados se completarem e se completando viverem numa comunhão de vida. O que é mais forte que o amor?
O livro atribuído a Salomão, que canta o amor à Sulamita, sentencia de um modo que desconserta aos amantes fazendo-os tremer, nas fressuras da alma, com um calafrio que toca, dos meandros do coração até o lume da razão, uma palavra: "o amor é forte como a morte!"
Tal comparação nos seria incompreensível e até mesmo deplorável se só levamos em conta a cultura moderna do prazer e da saciedade hedonista do mundo envolto nas trevas do egoísmo nefando que mata e se mata! Nesta ótica, as palavras do Amado que busca a sua Amada não fazem sentido algum!
Como comparar à morte estes olhares que se entrecruzam como que se comunicando a si mesmos sem sequer necessitar de uma única palavra e que fazem, do peito, brotar batidas que de tão altas são inaudíveis aos seres rebaixados pelo egoísmo orgulhoso da cultura do "eu"?
Na dura realidade da vida, a expressão da morte como força do amor parece não ter sentido nenhum a não ser o do medo do perder, por um corte que dilacera a alma e não faz brotar senão a dor do peito, naqueles que outrora eram força de suporte!
Nestes termos, as leis da morte e da dor imperam como uma densa nuvem no horizonte da vida. E o amor está fadado ao fim por que ou simplesmente se dissipa com o tempo ou é arrancado de nós com a brutalidade de uma força externa inviolável que tudo devasta!
Não há homem que consiga, portanto, fazer uma mulher feliz e nem uma mulher que consiga fazer um homem feliz. Parece que esquecemos o óbvio: seremos eternamente insatisfeitos, por que não haverá o que nos preencha neste mundo! Não, não afirmamos que o sonho de algo que nos preencha por completo seja irreal. O que dizemos é que este sonho não é para este "aqui"!
Seria exigir de mais de alguém a "produção" da felicidade! É um peso que ninguém deve carregar por que a felicidade não é um produto de sentimentos e tampouco resultado de rendimentos financeiros.
Casamentos se extinguem, amizades se esvaem e o amor se esmaece por que se exigem os "direitos da felicidade". Todas as vezes que isso acontece, a impressão que resta no fundo vazio do coração marcado pela dor é que a morte é forte a ponto de matar o amor!
Mas diz aquele que ama: "O Amor é forte como a morte"!
Esta expressão encontrou, no Amor de Cristo pela sua Igreja um novo modo de existir. Um modo real, superior, forte como a morte, por que o Noivo deu a vida pela Noiva e agora, pela mesma força do amor a Noiva, que é a Igreja, é chamada a dar a vida por seu noivo, que é o Cristo.
O Amor é forte como a morte por causa do Cristo que contradisse toda a lógica do egoísmo humano abrindo mão de si mesmo, saindo de si (num movimento oposto ao movimento do egoísmo) e não exigindo do outro o "dever da felicidade", mas esgotando-se até sua ultima gota de vida para que, no Pai, o amor fosse real.
Um amor que é paciente, bondoso e que não sente inveja. Que não é orgulhoso ou arrogante e, acima de tudo, não busca os seus próprios interesses, não se irritando ou guardando rancor. Que tudo desculpa, espera e suporta. (Cf. 1 Cor 13).
Tudo isso é forte como a morte, por que significa, no dia-a-dia das pequenas decisões, celebrar os olhares que se entrecruzam, os corações que palpitam em uníssono e o amor que berra pela vida, mesmo que o egoísmo imperioso de nossos dias tente ofuscar a beleza de um laço que une.
O amor é forte como a morte por que ninguém ama mais do que aquele que dá a vida pelo amado!
De muitos modos e por muitos meios há sempre uma possibilidade de, no rosto resplandecente da esposa que se dá em amor ao seu esposo, e na força do vigor do esposo que fecunda a sua esposa, ver gerar a vida que brota como um simples germe que sintetiza o amor de um e de outro entregue ao sacrifício de vida!
O amor é forte como a morte por que faz da morte uma exaltação ao Pai que, olhando seus filhos que não se fazem donos, mas desprezam o possuir egoísta e fechado gerando uma síntese de amor, faz perdurar até o ultimo minuto de vida um amor que preenche até mesmo os espaços da ausência. O amor é forte como a morte, por que em Cristo o egoísmo é vencido pelo dar-se: expressão suprema do amor e elevado aos píncaros do desprendimento de si gerando – na comunhão dos esposos que é unidade de vida, no bem dos que se amam e nos filhos – a maior força de vida que não se abala com nada!


 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Um Olhar para Jó


Esse texto escrevi em um ensaio de homilia baseado no livro de Jó.
Nossas almas escutaram a extenuação de um homem. Diante do non-sense de uma resposta absurda aos seus dramas mais interiores e no vórtice da incompreensão humana, o Senhor vem ao encontro de Jó e lhe apresenta o Vértice de tudo quanto lhe obscurece a alma: uma curva, um silêncio, uma lágrima!
Tendo sido tocado à alma por um gládio, sente no centro da vida a dimensão mais humana de sua humanidade e o gáudio mais divino da graça que o faz contemplar, obscuro, um dia novo...
Certamente chegará o dia em que a última espada brandida nas contendas da vida se quebrará, e que a última lágrima será derramada. Dia onde se contradirá com alegria a dor e a tristeza e com a segurança o medo. Mas esse dia não é hoje!
Hoje, nós ficamos e lutamos!
Porque talvez não tivéssemos entendido a violência da verdade e o quanto de força há na suavidade se Deus não tivesse nos levado ao chão da humilhação e nos mostrado que os metais mais preciosos são provados nos fornos de temperatura mais elevada de Amor.
Talvez nosso coração não tivesse se ferido tanto se tivéssemos escolhido ficar no mesmo lugar, mas também nunca teriamos visto o Sol de Amor iluminar a beleza da criação diária de Deus em nós.
Se tivéssemos tampado os ouvidos à voz que nos chama, sofreríamos menos, mas também amaríamos menos e não seriamos felizes.
"Há que se resignar a caminhar no deserto, no frio e na noite, guiado apenas por uma misteriosa estrela, mas a chega é certa!" (Me. Marie Helena Cavalcanti)

 
Fabiano de Carvalho Silva