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domingo, 2 de novembro de 2014

Pra começo de conversa

Pra começo de conversa quero estabelecer alguns parâmetros por saber que logo irão encher minha paciência (que não é lá grandes coisas) com uma enxurrada de posts agressivos. Então, para que se saiba exatamente o que estou discutindo e os limites deste debate, quero deixar claro que não é por que sou padre que não posso ou não deva falar de política. Ao contrário, sinto-me na obrigação de tornar claros alguns pontos de vista a respeito de posições políticas. Essa história de que padre não pode falar de política é pura mordaça. Se eu estivesse aqui defendendo o PT, a esquerda caviar ou os socialistas de butique, teria uma legião de idiotas úteis me ovacionando. Mas como esse cenário político é vergonhoso e minha opinião vai na contramão dessa gente, ficam inventando isso de: “padre não pode falar”.

Segunda coisa: não me venham com esse discurso de “pobre”. Sei bem diferenciar um pobre de um preguiçoso e malandro. Sei que tem gente que recebe bolsa família e gasta com cachaça e sei bem que tem gente que realmente necessita do benefício. Sei que tem muitas (não poucas, muitas) pessoas se aproveitando dos projetos sociais para não trabalhar. Então, levar o discurso para o campo de “ele está discriminando o pobre” é simplesmente um argumento emocional para encobrir fatos. Aliás, quando agente quer ganhar um debate sem ter razão ou argumentos, é só lançar mão da frase “você está sendo preconceituoso” que dá pra albergar tudo debaixo dessa falsidade. Então deixem de ser infantis e vamos discutir ideias sérias e não essa bobagem de “é preconceito”. Então aqui não vai nenhum preconceito ao pobre, ao negro, ao nordestino e a quem quer que seja. Somos iguais em dignidade, não obstante nossas diferenças. Trata-se de desonestidade tentar vencer um debate com essas posições que não levam a lugar nenhum.

Por último, querer estabelecer que o pobre agora poder comprar e antes não podia é no mínimo ridículo pelo simples fato de que esse “crédito” só gerou uma sensação de mobilidade, uma vez que na realidade o pobre sempre pagou mais pelo produto comprado em 146 vezes em quaisquer dessas lojas, quando o justo seria que nossa carga tributária fosse menor aumentando o valor aquisitivo do salário ou que ao menos o serviço recebido fosse proporcional ao que se paga. E ainda menos, se levarmos em conta que os pobres nunca estiveram tão endividados e inadimplentes como hoje.

Dados esses pontos, passemos a algumas considerações.

Desde domingo passado estou observando, refletindo e indagando alguns pontos das eleições 2014. A princípio não entendi o que aconteceu para o PT ganhar essas eleições; por qual motivo a presidente eleita se arvorou o título de preferência nacional; o que levou os brasileiros a escolherem o que claramente não está bom e, por fim, sou levado a considerar a clara divisão patente no Brasil. Quero considerar esses temas de modo mais detalhado agora.

Em meio a escândalos de corrupção, de mensalões e de petrolões, em meio a arrazoados estranhos como a indicação de um curso no PRONATEC a uma economista desempregada e de milhares de recursos à baixaria, assistimos, debate após debate, a presidente-candidata ser trucidada de vários pontos de vista (que vão do português ao conhecimento parco das casas legislativas). Às vezes dava nervoso ver como ela se desempenhava e acho que ela também sentiu isso com sua “oscilação” de pressão arterial (SIC). Ficaram claras as propostas de confisco de bens, de diminuição da carga horária escolar, da reforma política por meio de plebiscito (o que é inconstitucional) e da intenção de regulamentação (ou cerceamento) da mídia.

À bem da verdade, depois dos ovos fritos, o que sobrou foi uma enorme rejeição à presidente. Não adianta dizer que ela ganhou as eleições por que a verdade não é bem essa. Se contarmos bem, a maioria dos brasileiros a rejeitou, se somados os votos do seu opositor aos votos brancos e nulos. Não! Dilma perdeu, muito embora tenha levado, mas é claro que vão me dizer que o que importa é que ela ganhou... Tudo bem!

Conversei com pessoas de várias classes sociais e por diversos meios. As mais simples tinham medo de perder benefícios, outras tinham ideologicamente uma opinião e algumas outras viviam uma espécie de anestesia política.

Alguém me disse que tinha direito a uma faculdade pública! Sim – pasmem – direito a uma faculdade pública! Quando fui checar, o fautor de direitos estuda em colégio particular. Achei interessante o altruísmo de alguém que advogou para si o direito de uma faculdade pública, mas não advogou o direito de termos um ensino fundamental público de qualidade (lembram-se da proposta de diminuir o currículo mínimo?).

Achei interessante a presidente em seu discurso de vitória, que ouvi com certa repulsa – mas concordo com quem disser que o sentimento advinha da decepção de vê-la ganhando – argumentar que o país não está dividido se durante a campanha todo o discurso girou entorno da divisão entre ricos e pobres, “nós” e “eles”. Luta de classes clara e explícita! Agora temos que engolir um discurso de que a presidente quer diálogo. Ora, se o Brasil não está dividido, com quem vamos dialogar? Há uma contradição em termos: Ou se está dividido e por isso precisamos de diálogo entre as partes ou não se está dividido e então faremos um monólogo.

Para além dessas questões ainda temos a velha política bolivariana, a flagrante engenharia comunista se instalando, fraudes em urnas eletrônicas que nunca serão investigadas (lembro que Dias Toffoli, que foi advogado do PT, é o presidente do TSE) e pedidos de impeachment, que, aliás, acho muito pouco provável que se concretize.
Bolsas famílias, CSF, PROUNI, ENEM (que gerou inumeráveis controvérsias, diga-se de passagem) à parte, ficou uma pulga atrás da orelha... É inegável que Dilma recebeu 51,63% dos votos válidos. O que levou tanta gente às urnas para esse (em minha opinião) descalabro? E o pior, como puderam tantos católicos anuírem com o governo tão comunista quanto o que temos?

Na sexta feira, rezando a liturgia da palavra, mais precisamente a carta de São Paulo aos Filipenses, no capítulo primeiro, vi o motivo claro: “E isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é o melhor” (Fil 1,9-10). Essa passagem me mostrou uma grande luz. Falta amor para que possamos, com conhecimento e experiência, discernir o que é melhor.

Explico: se levarmos em conta que o amor, na perspectiva cristã é um dar-se, uma vez que “prova de amor maior não há que doar a vida pelo amigo (Jo 15, 13) e já que não temos uma vida, senão que somos uma vida e que dar significa abrir mão em favor de outro, podemos concluir com razão que o contrário de amor (dar) não é o ódio (e este é só uma consequência da falta de amor), mas é reter para si. Quando vemos uma criança que retém algo para si, dizemos logo que ela é Egoísta. Deste modo, o contrário de “AMOR” é “EGOÍSMO”. Esse é o ponto. Fomos egoístas, não amamos na verdade e por isso fomos levados à falta de conhecimento e experiência para discernir.

É claro que estamos caminhando para um governo ditatorial, mas as pessoas pensaram tanto em não perder seus "benefícios" que optaram por perder o país num exemplo bem clássico de egoísmo. Coisa do diabo! (Como bem a presidente disse, nas eleições, o PT faria o DIABO para ganhar – e fez mesmo... ainda teve quem ficasse bravo ou decepcionado comigo!).

As consequências do pós-eleições são claríssimas: A bolsa em baixa, o dólar em alta, a Petrobrás derretendo, o COPOM elevando juros (11,25% ao ano), investidores estrangeiros sendo desaconselhados a aplicar recursos no Brasil... E a população achando que o governo vai conseguir manter os “benefícios”. Não pensaram bem agora vamos penar bem!

Estou sem muita esperança ou expectativa de melhora! Acho que vamos rolar mais quatro anos de escadas a baixo, e nos tornaremos uma Venezuela (aliás, o discurso dos aliados do Foro de São Paulo foi, digamos que... animadinho). Sinto que as pessoas não saibam escolher e isso reforça a minha tese de que o Brasil (e o brasileiro) não foi talhado para a República.

Bom, quanto à separação entre o Brasil do Norte e o Brasil do Sul, isso já está claro há muito tempo. Não estou falando de votos, pobreza ou riqueza e nem de bolsa família. Estou falando que desde há muito o Brasil lá de cima (cheio de suas riquezas e com seus desafios) é diametralmente oposto ao Brasil daqui de baixo (cheio de suas riquezas e com seus desafios). Se separar de vez é a saída, não sei (às vezes sou tentado a achar que é!). Mas que as diferenças são claras, isso são!

Em fim, penso ter feito uma reflexão madura sobre o panorama nacional, o que não significa que é uma última palavra (absolutamente não é), senão que fruto de uma observação. Espero com essa reflexão leva-los a pensar sobre nosso egoísmo (e inveja) a fim de superarmos os obstáculos que nos levam a escolher sempre o pior.


Post Scriptum: Se você não gostou do texto, desculpe, mas é minha opinião! 

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