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quarta-feira, 7 de março de 2012

Carta aberta em favor do Padre Paulo Ricardo


Já há dois dias que vejo as manifestações a favor do Revmo. Pe. Paulo Ricardo do Clero diocesano de Cuiabá, que tem estado em mídias como a TVCN, a internet – no site www.padrepauloricardo.org e outras. Sinto-me na obrigação de dizer algumas palavras em seu favor. Não que ele necessite de fato, por que a “carta aberta” que o detrata não tem conteúdo suficiente para se quer arranhar a boníssima imagem deste padre (digo padre antes de dizer teólogo, canonista, mestre espiritual dentre outros adjetivos que sua função permite).
 Por que um padre novo – tenho um ano de padre – do clero da Arquidiocese de Niterói/RJ, que é pároco numa pequena paróquia de interior (sou o feliz pároco de Nossa Senhora da Conceição em Boa Esperança, Rio Bonito/RJ) deveria levantar-se agora, depois que tantas eminentes vozes (tais como a do prof. Olavo de Carvalho) já se pronunciaram?
Tinha saído do seminário em 2001 e em 2005 um amigo me trouxe uns Cds com áudio de um retiro para seminaristas da renovação carismática (RENASEM). Naquela época vivia um momento difícil em minha vida cristã. Penso que quando saí do seminário tentei “matar” o seminarista que havia em mim me afastando de tudo o que pudesse lembrar aquela época. Modifiquei meu modo de vestir, meu comportamento, passei a sair mais, beber mais, fumar mais. Decerto, tinha amigos que não permitiram que eu me afastasse da Igreja e agradeço-lhes profundamente por isso, mas de Deus eu já havia me afastado há muito tempo.
Bem, não custava nada ouvir aquelas palestras que, segundo aquele amigo, eram muito boas. Indo para a faculdade, dentro de uma van, lembro-me como se fosse hoje, ouvi a primeira palestra e, ao fim, encontrava-me às lágrimas, ali mesmo, dentro daquela condução. Algo estava mudando dentro de mim.
Ouvi compulsivamente aquelas palestras, meditei em cada palavra que me tocava profundamente o coração... Deus estava falando comigo através daquele homem. Comecei a ver que minha saída do seminário não ocorreu por que eu não tinha vocação, mas o que me faltava era conversão. Queria um seminário, um sacerdócio e uma igreja ao meu prazer, mas não percebia que meus olhos não viam bem o que Deus queria. Naquelas palavras encontrei de novo um chamado para a vocação.
Ainda não estava pronto para voltar ao seminário, mas já sabia o que deveria fazer. Ao sabor daquelas palestras vi de novo brilhar a doçura do sacerdócio de Cristo, entendi que a cruz não era um obstáculo, mas uma condição e que não se poderia viver uma igreja ao sabor deste tempo, mas uma Igreja que fosse local do Encontro com o Cristo que nos leva ao Pai e que minha função nesta vida era ser como que a voz de Cristo neste mundo, outro Cristo.
Sim, Padre Paulo Ricardo foi uma das pessoas decisivas para que eu “criasse vergonha na cara” – como ele mesmo me disse uma vez enquanto conversávamos num retiro pregado no Seminário de Niterói – e voltasse para Deus.
O leitor já pode perceber que minha defesa não quer versar no universo teológico para desdizer o que os detratores do Revmo. Pe. Paulo afirmaram sobre ele. Não que não pudesse fazer: aquelas acusações são tão absurdas que não gastaríamos muito de nossos argumentos para derrubá-las uma a uma. Mas não vou me dar ao desgosto de perder tempo com isso.
Meu argumento de força é de ordem espiritual. O bem que aquele padre – sendo o padre que é – me fez, não terá conceito ou retribuição neste mundo: Devolveu-me a alegria de ser Cristão, ajudou-me a buscar a verdade acima de meus próprios desejos (muitas vezes sombrios e deturpados) e, acima de tudo, fez de novo o sacerdócio brilhar em minha vida como um caminho de amor para o Pai.
Depois de ter ouvido aquelas palestras, comecei a rezar de novo a liturgia das horas (que já tinham ido para o armário havia muito tempo) e comecei a frequentar de novo as missas diárias (não mais por obrigação de um horário, mas por meu próprio querer).
Na sexta-feira, 3 de junho de 2005 15:18 (ainda guardo o e-mail aqui comigo) resolvi escrever ao seminário de Cuiabá na esperança de que o Pe. Paulo me respondesse. Escrevi minha história, o que tinha acontecido e como me vi diante de Deus depois de tê-lo ouvido através daquelas gravações e pedi que me enviasse uma cópia de um arquivo que havia citado numa palestra.
Fiquei feliz quando no sábado, 4 junho de 2005 07:44:57, vi a resposta em minha caixa de e-mails. Quero partilha-lo agora já que seu conteúdo revelou um padre atento e preocupado com o bem do próximo, ao arrepio do que fora dito naquela carta que o detratara;

Caro Fabiano,
Recebi seu e-mail. Agradeço a confiança e o carinho. Envio-lhe imediatamente o arquivo pedido. Peço sua paciência porque no momento só posso responder meio às pressas (estamos preparando duas ordenações).
Você fala de aproximar-se de Deus. Mas como ficou a vocação? Ainda se sente chamado. Como está seu relacionamento com o novo arcebispo? Não é possível uma aproximação?
Tenha certeza das minhas orações.
Um abraço
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior


Senti-me realmente amparado pela oração sacerdotal do Pe. Paulo. Um homem equilibrado e sensato, ao contrário do que agora o acusam.
Na segunda-feira, 6 de junho de 2005 17:25 respondi o e-mail continuando o diálogo com o Padre respondendo àquelas perguntas que me fizera. Senti-me, pela primeira vez, realmente empolgado com a ideia de retornar ao meu caminho vocacional.
Na segunda-feira, 6 Jun 2005 22:32:58 recebia o e-mail que me daria a pedra final para a minha decisão, o fim de um percurso de volta (de conversão) a Deus. Muitas vozes, é bem verdade, haviam me orientado nesse itinerário, mas essa foi decisiva. Igualmente partilho o e-mail que o Padre Paulo me enviou:

Querido Fabiano,
”Já não vos chamo servos [...] eu vos chamo amigos” (Jo 15,15).
A quem Jesus disse isto?
Lá estavam, diante dele, Judas, Pedro e os outros fujões e traidores.
Jesus não fez deles amigos (apóstolos, padres, etc.) porque eram fiéis. Mas foi, ao contrário, a amizade de Jesus que foi fazendo deles amigos fiéis.
Não seja duro demais com você.
Não espere demais, não espere a perfeição.
A vida de sacerdote será sua santificação.
Não espere ser santo para ser padre. O sacerdócio fará de você um santo.
Os documentos da Igreja são claros em atesta-lo. É o próprio ministério do sacerdote quem o santifica. É a amizade com Jesus (o contato diário com a Palavra que precisa ser pregadas e com os sacramentos que precisam ser ministrados) quem santifica o padre.
Repito: Não espere ser santo para ser padre. O sacerdócio fará de você um santo.
Por enquanto, continuo orando por você.
Um abraço
Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Minha defesa em favor do Padre Paulo Ricardo, se é que ele precisa de uma, vai mais ao viés de um testemunho sobre o contrário das leviandades aventadas sobre sua pessoa naquela carta infame que agora circula na rede e que foi entregue a autoridades eclesiásticas.  Creio que minha obrigação, longe da obrigação de defender alguém, está mais para a obrigação da gratidão.
Sou um padre feliz, vivo meu ministério entre paroquianos que são filhos, pais, amigos e irmãos. Muitas vezes faço em suas vidas o papel de amigo, de pai de irmão... choro com suas dores e me alegro com suas alegrias. E, mesmo contando em consciência com tantos pecados, sinto-me mais próximo de Deus pela alegria de um ministério que me fez compreender que é possível um caminho de santidade a partir do amor sacerdotal que se imola.
Espero, com essa carta, mostrar a utilidade e importância do ministério de Padre Paulo Ricardo para a Igreja Católica ao mesmo tempo em que agradeço sua presença em minha vida trazendo-o comigo – no meu coração – todos os dias eucarísticos de meu ministério por que pelas palavras dele “Deus me Visitou”[1]
Padre Fabiano de Carvalho Silva


[1] Essa expressão ele usou na dedicatória que me fez num livro de sua autoria.